PROTISTAS
ALDEIA QUE VIVE DO ÁGAR-ÁGAR



Azenha é uma aldeia de pescadores que vive da apanha de algas com alto interesse farmacológico. E os pescadores que apanham as algas que fornecem o ágar-ágar, em mergulho nas águas da costa alentejana de jurisdição do parque natural, são o exemplo de como se pode e deve preservar os recursos humanos, numa área em que os estudos em Portugal só agora começam a ser feitos. Apesar da exiguidade das verbas. Dora de Jesus é a bióloga que, ao serviço do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, está a estudar o ponto da situação deste recurso que já era referido e regulamentado no tempo de D. Dinis.

A importância da apanha da alga nas comunidades costeiras é enorme, tanto a nível económico como social, no entanto a apanha submarina é uma actividade de risco, ao longo da costa, e muitas comunidades têm vindo a abandoná-la, devido à pouca compensação e também pelo esgotamento da pradaria de algas.

De Sines a Vila Real de Santo António, a Azenha do Mar, portinho de pesca a sul da praia do Carvalhal, é, provavelmente, o último grande campo de algas existente, e para lá convergem barcos de outros pontos. Toda a comunidade e muitos que a ela acodem no Verão dependem do "limo" apanhado em cada Verão.

Dora de Jesus afirma que, "hoje, a actividade do homem, e este como agente de um desenvolvimento sustentado, está no centro da batalha por um melhor ambiente. Saber o estado em que se encontra este recurso é o motivo dos meus trabalhos ao longo de 1999. Mas muitos mais têm de ser feitos para que se possa fazer uma gestão sustentada da apanha da alga na costa da Azenha".

Dora de Jesus destaca o comportamento ambiental dos apanhadores, "dentro das suas possibilidades, e dadas as condições de vida da sua maioria, e talvez exactamente por causa delas, os homens responsáveis pela apanha submarina de algas tentam, tanto quanto possível, não levar o recurso à exaustão, adaptaram a sua técnica de "arranque" a um "quebrar" do talo das algas, para que se renovem rapidamente, e eles próprios efectuam as medições do tamanho das frondes das algas, e, apesar de a época ser estabelecida pela entidade competente, só a iniciam quando as "algas estão capazes" para serem colhidas". As macroalgas marinhas são muito utilizadas pelo homem.

A espécie colhida na Azenha é a Gelidium sesquipedale e é uma alga vermelha. Tem frondes de 20 a 30 centímetros, formando fácies extensas e densas. A sua distribuição vai desde os dois a três metros até aos 25 de profundidade, encontrando-se muitas vezes nas "poças" debaixo das outras. Ocorre em águas temperadas e quentes, com forte hidrodinamismo e insolação directa.

O seu interesse económico é elevado porque dela se tira o ágar-ágar, um dos hidrocolóides com maior número de aplicações, desde a microbiologia, como meio sólido de cultura, à indústria alimentar, como emulsionante e conservante, como agente clarificador na produção de cerveja, vinhos e café, como pectina em gelatinas, compotas e marmeladas.

Depois de vários anos a apanharem algas a partir das suas pequenas aiolas (embarcações com quilha), apareceram barcos especializados: as traineiras. Na altura da apanha do "limo", toda a gente trabalha. A pesca é esquecida.

A apanha da alga compõe-se de três fases, definidas por quem nelas participa, conforme a idade e o sexo. São a apanha propriamente dita, a secagem e a venda das algas. As mulheres e os idosos cuidam da secagem das algas, num remexer e virar constante, no solo que tem de estar limpo, para depois serem recolhidas em "pilhas".

Os homens distribuem-se por 12 barcos, uns maiores e outros menores. Mergulham com escafandros semiautónomos accionados e cuidados por outros, os "moleques", que ficam a bordo, içando as redes cheias de algas. Os mergulhadores vão para a água às sete horas e suspendem o trabalho às 17, com 15 a 30 minutos de pausa para almoçar. São oito a nove horas de jornada muito dura. Cada um faz cerca de 750 a 1600 quilos de algas, em húmido. Consideradas as mais diversas despesas e com o desconto que a única fábrica que recebe as algas quase exige, o apanhador, dos 750 contos da venda no final da campanha, fica só com metade.

Para mal dos pecados dos apanhadores e pescadores da Azenha do Mar, este ano a safra está em risco de se não poder efectuar, pois o mar veio forte em Outubro e destruiu a rampa de varar e dificultou o acesso ao porto. O parque natural está a mexer os "cordelinhos" para recuperar o que o mar desfez.

in Diário de Notícias, 28 de Março de 2000

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