PROTISTAS
O JOGO DAS ESCONDIDAS DO PARASITA DA MALÁRIA



Imagine um pequeno filme de 87 segundos em que um vilão arromba sucessivos santuários de forma estrategicamente pensada. Não, não se trata de um excerto de um filme de heróis e vilões ao estilo de Hollywood. O filme foi feito num laboratório da Universidade de Nova Iorque há dez anos, o vilão é o parasita da malária e o reduto violado são as células do fígado. Mas a fita não deixa de ser impressionante. O estudo publicado hoje na revista "Science", da autoria da investigadora portuguesa Maria Manuel Mota e da espanhola Ana Rodríguez, revela, com a ajuda daquele filme, novas estratégias de ataque do parasita da malária: na sua fase inicial de esporozóito, o "Plasmodium" percorre várias células, numa tentativa de distrair o sistema imunitário. Até que se instala numa. Depois, o parasita saltitão e espertalhaço começa o ataque.

Maria Manuel Mota, de 29 anos, estudante de pós-doutoramento na Universidade de Nova Iorque, onde dá aulas, contou ao PÚBLICO como um dia, em conversa com Jerome Vanderberg, responsável da cadeira de parasitologia do curso de medicina daquela instituição, lhe falou do seu estudo sobre as estratégias do parasita da malária. Então, Jerome Vanderberg disse-lhe que tinha um filme guardado há dez anos, precisamente sobre esses mecanismos, que a podia ajudar. "Conseguimos provar o efeito que tínhamos estudado através do filme." E assim nasceu o artigo publicado hoje.

Com a ajuda do filme, e após dois anos de investigação, Maria Manuel Mota e Ana Rodríguez descobriram estratégias usadas pelo parasita da malária que se desconheciam até agora, e que podem revelar mais sobre o singular comportamento do "Plasmodium". "O parasita da malária tem uma espécie de casaco de proteínas e ao passar por várias células, que podem ser entre quatro a 20, vai deixando essas proteínas, vai deixando sinais", explica Maria Manuel Mota.

Para a equipa de Maria Manuel Mota, esta migração do parasita de célula hepática em célula hepática constitui uma espécie de estratégia ritual que lhe permite transmitir um sinal que distrai o sistema imunitário e o torna quase indetectável até ao momento em que já está instalado numa das células. As proteínas que o parasita vai libertando são pequenos focos de engano para a resposta do sistema imunitário, que passa depois a atacar estas células não infectadas, com base nos sinais enganadores deixados pelo parasita. Por sua vez, a célula infectada permanecerá intacta até já não haver nada a fazer.

Depois de brincar com a nossa resposta imunitária, o parasita torna-se mais subtil: instala-se e depois constrói no citoplasma da célula uma espécie de compartimento que o protege, para então passar, comodamente, à próxima fase, a da infecção: "Ele constrói, na própria membrana da célula escolhida, o chamado vacúolo parasitário", explica a investigadora. E só depois é que passa ao ataque dos glóbulos vermelhos.

Maria Manuel Mota afirma que não sabe ao certo qual a implicação destas conclusões a que a sua equipa chegou. "Podem ser muito importantes. E podem ter muitas implicações." Mas diz que ainda há muito para descobrir.

"Sendo da mesma família de outros parasitas - como por exemplo o da toxoplasmose, muitas vezes usado como modelo celular do 'Plasmodium', uma vez que é maior -, o parasita da malária é brutalmente diferente", explica a investigadora portuguesa. "Enquanto para o parasita da toxoplasmose qualquer célula serve, o 'Plasmodium' só se interessa pelas células do fígado, pelo que podemos muito bem separá-lo evolutivamente dos outros parasitas da mesma família."

in Público, 05 de Janeiro de 2001

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