PROTISTAS
COMO SE ALIMENTA O PARASITA DA MALÁRIA



O parasita da malária acaba de revelar um dos segredos responsáveis pelo sucesso da doença que ainda mata 1,5 a 2,7 milhões de pessoas todos os anos. Os cientistas sempre se questionaram como é que o parasita, que cresce várias vezes de tamanho dentro de um glóbulo vermelho, conseguia apenas satisfazer-se com os nutrientes daquela pequena célula. Uma equipa dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos concluiu que milhares de pequenos canais na membrana exterior do glóbulo vermelho, feitos por uma proteína específica, deixam entrar na célula os nutrientes necessários ao parasita esfomeado.

O "Plasmodium", o parasita da malária, transmitido através da picadela de um mosquito do género "Anopheles", invade os glóbulos vermelhos do hospedeiro. Nas primeiras 48 horas, o parasita aumenta várias vezes de tamanho, provocando a explosão do glóbulo vermelho e iniciando a fase em que o paciente arde em febre. Passa então a dividir-se em 20 a 30 novos parasitas. Mas o seu crescimento e multiplicação requer uma boa nutrição, em açúcares e aminoácidos, que o glóbulo vermelho em que se aloja cedo deixa de lhe poder fornecer. Onde é que o parasita vai buscar energia para crescer tão desmesuradamente?

O parasita precisa de nutrientes vindos de fora da célula infectada, mas como é que a membrana deixa passar esses nutrientes? A equipa liderada por Sanjai Desai afirma, num artigo publicado ontem na "Nature", que o segredo reside em mais de dois mil canais abertos na membrana exterior da célula infectada, que servem de canal de abastecimento, alimentando o apetite voraz do parasita. Estes canais são, segundo a equipa, abertos por uma proteína que permite apenas a entrada aos nutrientes certos para a dieta do parasita.

Kiaran Kirk, da Divisão de Bioquímica e Biologia Molecular da Faculdade de Ciências da Universidade Nacional da Austrália, afirma, num comentário ao artigo da equipa de Desai, já ser do conhecimento da comunidade científica que "durante o processo de infecção a própria membrana exterior do glóbulo vermelho sofre um grande aumento da sua permeabilidade à entrada de nutrientes". O grande passo da equipa foi descobrir que essa permeabilidade a certos nutrientes se deve a estes milhares de canais. Resta saber se há uma transformação de uma proteína já existente, provocada pelo processo de infecção, de modo a que sejam abertos os canais de alimentação, ou se, por outro lado, o parasita atrai um certo tipo de proteínas que o servem.

A equipa afirma que, sabendo que há uma proteína envolvida no processo, um inibidor da produção dessa proteína pode ser uma pista para a criação de novos medicamentos, que ataquem o parasita na sua fase intracelular.

in Público, 01 de Setembro de 2000

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