PROTISTAS
"DROSOPHILA" COM PALUDISMO



Um grupo de investigadores do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID) e do Instituto Whitehead, de Cambridge (Massachusetts) conseguiu infectar a mosca-da-fruta, a Drosophila, com o parasita na origem da malária, ou paludismo, o que pode tornar mais fácil no futuro o desenvolvimento de novos tratamentos ou, até, de uma vacina contra esta doença ainda sem cura.

"Esta experiência dá-nos novas e importantes possibilidades de podermos compreender qual é a interacção entre o parasita do paludismo, o plasmodium, e o insecto que o hospeda, o mosquito, que é o responsável pela disseminação da doença", afirmou o director do NIAID, Anthony Fauci. A equipa que desenvolveu a pesquisa publicou os resultados na edição de ontem da revista Science.

A transmissão do paludismo passa por várias etapas. Um mosquito pica um indivíduo infectado com malária e absorve o parasita. Este reproduz-se e desenvolve-se no tubo digestivo do seu hospedeiro e em seguida é inoculado noutra pessoa quando ela é picada pelo mosquito que alberga o parasita. Até agora era muito difícil observar o desenvolvimento do plasmodium e de travar a sua acção, dado que a pesquisas sobre o mosquito são muito limitadas. Com este grande passo agora dado pelo grupo de investigadores americanos, coordenado por Mohammed Shahabuddin, as coisas podem mudar de figura.

Ao inocular a Drosophila com o plasmodium, onde ele se desenvolveu normalmente, os cientistas conseguiram arranjar uma forma de compreender a relação entre o parasita e o seu hospedeiro. No trabalho que desenvolveram, já tiveram aliás oportunidade de observar o sistema imunitário da mosca-da-fruta em luta contra o instruso.

Por outro lado, o genoma da mosca-da-fruta já está descodificado, o que é uma vantagem acrescida. A partir deste conhecimento, os investigadores esperam poder detectar os mecanismos que estão em jogo no organismo do insecto neste processo, para em seguida tentarem modificar geneticamente os mosquitos e criar uma nova espécie em que as larvas do plasmodium não tenham possibilidade de se reproduzir e desenvolver. "O facto de termos conseguido infectar a Drosophila é particularmente feliz, uma vez que o seu genoma completo acabou de ser lido há muito pouco tempo", afirmou Shahabuddin, sublinhando que isso vai permitir agora "escrutinar todo o genoma, identificar os genes específicos implicados na resposta da mosca ao plasmodium e procurar os genes correspondentes no mosquito".

Esses estudos permitirão ainda, segundo o investigador, "identificar os factores que, no insecto, são essenciais à sobrevivência do parasita e que poderão, finalmente, conduzir a uma optimização dos meios de que dispomos para quebrar o ciclo de vida do parasita e bloquear a transmissão da doença".

in Diário de Notícias, 01 de Julho de 2001

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