PROTISTAS
GENE MUTANTE FACILITA MALÁRIA



Um dos maiores problemas do combate à malária é a resistência do parasita responsável pela doença aos medicamentos conhecidos, mas, agora, uma equipa de cientistas do Instituto Nacional de Doenças Alérgicas e Infecciosas, dos Estados Unidos, descobriu o gene que torna o Plasmodium falciparum resistente, o que poderá permitir o regresso da terapia com cloroquina ou o desenvolvimento de novos remédios.

Segundo um artigo publicado no último número da revista Molecular Cell, a equipa de investigadores americanos conseguiu, ao fim de 15 anos de trabalho, identificar as alterações no ADN do parasita - mutações ínfimas num gene do cromossoma 7 - que conduzem à resistência à cloroquina. Este medicamento tem sido usado para combater a malária desde os anos 40 e sempre foi muito eficaz, além de barato, mas, nos últimos anos, o parasita ganhou resistências e a droga teve de deixar de ser usada em diversos países.

Em declarações à BBC Online, Thomas Wellens, que dirigiu a investigação, considerou que fase alguma do estudo estava em desacordo com as conclusões e afirmou que "este poderá ser o único gene que expressa a resistência à cloroquina". A declaração de Wellens baseia-se no facto de, até agora, a maioria dos cientistas considerar que diversos genes do parasita eram responsáveis pela resistência àquele medicamento. Todavia, a sua equipa descobriu que a "culpa" cabia apenas a quatro a oito mutações num gene do cromossoma 7 conhecido como pfcrt.

Os resultados do estudo de Wellens e da sua equipa - que chegou a bons resultados sobretudo devido aos trabalhos de descodificação do genoma do parasita - poderão ter grandes consequências, a primeira das quais será a eventual modificação da fórmula da cloroquina, de modo a que o medicamento consiga ser eficaz contra os parasitas mutantes. Uma outra possibilidade será o futuro desenvolvimento de novos medicamentos contra a doença.

A malária é uma das doenças que mais afligem a humanidade, sobretudo na África, na Ásia e na América Latina, e todos os anos são infectadas entre 300 a 500 milhões de pessoas. A mortalidade é elevada, mais de três milhões de óbitos por ano, com grande incidência na África subsariana, região onde também ocorrem 90 por cento dos casos de doença, e as principais vítimas são as crianças: segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde, morrem em todo o mundo entre 200 e 300 por hora.

Nos últimos anos, e devido ao alargamento das áreas de incidência da doença e às resistências conquistadas pelos parasitas que a causam, nomeadamente o P. falciparum, as pesquisas para encontrar uma forma eficaz de combater a malária têm sido bastante diversificadas.

Uma das vertentes de ataque tem sido o desenvolvimento de uma vacina, e neste momento estão em curso diversos testes, mas nenhuma, até agora, provou ser cem por cento eficaz. Além disso, como a doença é causada por um protozoário, tem sido difícil actuar a este nível, porque a reacção imunitária à malária é diferente da reacção a doenças virais, como a varíola, por exemplo.

Outra vertente é a erradicação do vector da doença, o mosquito do género Anopheles, mas também neste campo as dificuldades são grandes, porque uma política errada de combate ao insecto com pesticidas, no passado, levou a que se desenvolvessem resistências a estes compostos por parte da maioria das populações de anófeles, conforme reconhece a Organização Mundial de Saúde.

Assim, algumas das últimas investigações envolvem a modificação genética do anófeles, criando machos estéreis, por exemplo, a fim de reduzir biologicamente a espécie, conforme o DN oportunamente noticiou. No entanto, a libertação destes insectos criados por engenharia genética no meio ambiente, embora tecnicamente possível, não é uma questão pacífica e envolve sérios problemas éticos, tanto mais que se desconhece qual o impacte ambiental que esta actuação poderia ter.

in Diário de Notícias, 23 de Outubro de 2000

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