PROCARIONTES
BACTÉRIAS DE MATUSALÉM



Uma equipa de investigadores norte-americanos afirma hoje na revista "Nature" ter encontrado bactérias que hibernaram durante 250 milhões de anos no interior de cristais de sal e que, quando colocadas num meio de cultura, voltaram a viver. Pode algum organismo ter uma vida tão longa ou simplesmente os cientistas não conseguiram eliminar todas as contaminações e tratar-se de bactérias mais recentes? A questão é polémica, e promete fazer correr muita tinta entre a comunidade científica.

Foi numas salinas do Novo México, nos Estados Unidos, que a equipa de Russel Vreeland, da Universidade de West Chester, na Pensilvânia, encontrou os esporos de bactérias que terão estado vivas no período Pérmico, há 250 milhões de anos, enterrados a cerca de 609 metros de profundidade.

Se a descoberta se confirmar, fica batido o recorde das bactérias encontradas pela equipa de Raul Cano nos intestinos de uma abelha fossilizada em âmbar. Num artigo publicado na revista "Science", Cano garantiu ter conseguido reviver estas bactérias, apesar de terem passado entre 25 e 40 milhões de anos em latência (ver "Um sono de dezenas de milhões de anos", PÚBLICO de 19/05/1995).

Tal como a equipa de Cano, a de Vreeland frisa que tomou todas as precauções que se pôde lembrar para esterilizar os cristais de sal. Os investigadores dizem até que as hipóteses de contaminação da amostra por uma bactéria moderna são de uma em mil milhões.

Mas, tal como aconteceu com Cano, Vreeland terá de enfrentar o cepticismo dos seus colegas. Milton Costa, do departamento de Microbiologia da Universidade de Coimbra, é um dos cépticos: "Afirmações extraordinárias requerem confirmações extraordinárias. Senão, é tudo uma questão de fé", disse ao PÚBLICO.

A bactéria encontrada por Vreeland foi identificada apenas como 2-9-3, e os seus esporos germinaram numa cultura feita em laboratório. Os esporos são cascas protectoras que algumas bactérias constroem quando o meio ambiente não lhes fornece nutrientes para sobreviverem no estado activo. Dentro da casca, que contém o seu património genético, a bactéria permanece num estado latente: o seu metabolismo está quase parado e a sua desidratação é total.

"Os esporos bacterianos são talvez as estruturas mais resistentes que existem na Terra. Podem ser transportados pelo ar, e sobrevivem mesmo quando expostos a altas temperaturas e condições de secura", explica Milton Costa. E são comuns - o tétano, o botulismo e a gangrena são causados por bacilos relacionados, que produzem esporos. Mas saber-se que são resistentes e que podem sobreviver em latência durante muito tempo é diferente de afirmar que se encontrou um organismo que vive há 250 milhões de anos, defende Milton Costa.

O derradeiro teste a que a equipa de Cano submeteu as bactérias reanimadas foi a comparação de uma parte do seu ADN com o de bactérias modernas. O velho ADN e o actual revelaram-se suficientemente parecidos, mas ao mesmo tempo suficientemente distintos, para reforçar ainda mais a ideia de que as bactérias recuperadas por Cano provinham realmente do intestino das abelhas pré-históricas.

Mas as análises ao ADN das bactérias 2-9-3 não convencem totalmente Milton Costa: é muito parecido com o da bactéria "Bacillus marismortui", descoberta precisamente numa garrafa cheia da água salgada do Mar Morto. Mas tem uma taxa de variação genética inferior ao que seria de esperar em relação a um outro micro-organismo da família dos bacilos, o "Virgibacillus pantothenticus", assumindo que a diferenciação teve início há 250 milhões de anos.

"A Terra era um mundo muito diferente nessa época, em que nem sequer existiam os dinossauros. Um sobrevivente dessa altura teria de ser muito diferente de qualquer organismo moderno", diz Milton Costa. Isto porque mesmo sem contar com quedas de meteoritos ou as alterações climáticas provocadas ou não pelo homem, todas as espécies acabam por se extinguir. O período de vida máximo calculado para as espécies de vertebrados é de cinco a dez milhões de anos, enquanto para as bactérias os cálculos não vão além dos 70 milhões de anos - o que é largamente ultrapassado pelo micro-organismo identificado pela equipa de Vreeland.

Claro que muitos fenómenos podem ter modificado a estratificação das camadas geológicas e as salmouras de profundidade podem ter sido contaminadas por outras mais recentes, o que baralha a informação geológica do local da descoberta, realça Milton Costa.

Num comentário publicado juntamente com o artigo de Vreeland, John Parkes, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Bristol (Reino Unido), relança uma velha teoria: a de que a Terra pode ter sido semeada de vida por organismos extraterrestres - vindos de Marte, quem sabe. "Dado este exemplo surpreendente de durabilidade bacteriana, será que esporos transportados em rochas poderiam ter sido um mecanismo de transferência da vida entre planetas?", interroga.

Milton Costa é bastante céptico também em relação a este argumento. "Posso ser muito conservador, mas acho que não pode ser assim. Pelo menos até se isolar um ser vivo em Marte, a questão continua em aberto."

in Púlico, 19 de Outubro de 2000

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