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BACTÉRIA ANTROPÓFAGA ATACA



Os serviços de saúde de Glasgow, Grã-Bretanha, divulgaram um aviso após terem detectado dois casos, a semana passada, de uma doença rara e potencialmente fatal, diagnosticada entre consumidores de drogas, mas que pode afectar, igualmente, pessoas não toxicodependentes. Não há, no entanto, notícia de qualquer caso em Portugal. Dois casos de "fascite necrosante", a que também se denomina "bactéria que come carne" surgiram nas consultas de rotina a toxicodependentes, após uma terrivel erupção da bactéria clostridium, que provoca o tétano e matou mais de 30 consumidores de heroína no Reino Unido e Irlanda, durante o ano passado.

"Depois da erupção do último ano, lançámos medidas de vigilância", referiu o médico Jim McMenamin, do Conselho Superior de Saúde de Glasgow. A rara doença que destrói a carne é causada por uma infecção bacteriana que ataca os tecidos moles e o fáscia, e as bainhas dos tecidos que cobrem os músculos. A "fascite necrosante", que pode levar uma pessoa perfeitamente saudável às portas da morte em poucos dias, é provocada pela bactéria streptococcus, tipo A, uma variante que também causa inflamações de garganta, escarlatina, intoxicação sanguínea e grande variedade de infecções cutâneas.

Os toxicodependentes que se injectam são mais vulneráveis à doença porque geralmente introduz-se no organismo através de uma ferida na pele. Mas a doença pode estar também associada a um trauma determinado, como queimaduras, lacerações, contusões, picadas de insectos, mordeduras de animais, injecções subcutâneas com insulina ou complicações pós-operatórias. Atinge homens e mulheres e, com mais frequência, diabéticos, pessoas imunodeprimidas ou com graves problemas de nutrição. A bactéria pode atingir qualquer parte do corpo e espalha-se rapidamente provocando a deterioração da pele e dores penosas, tensão arterial perigosamente baixa, febre e desidratação grave, devido às toxinas que envenenam o corpo. O tecido gangrenado tem de ser removido cirurgicamente para que a vida do doente se salve. Quando descoberta atempadamente, pode ser tratada com antibióticos. No entanto, existe a hipótese da bactéria afectar os músculos ou os ossos, o que pode exigir amputação.

McMenain sublinhou que, por ocasião da erupção do tétano, os técnicos de saúde tinham avisdo os toxicodependentes que consumiam droga por via injectável para fumarem em vez de usarem a via endovenosa. Cerca de um milhar de casos da "bactéria que come carne" são diagnosticados todos os anos no Reino Unido, dos quais 60 a 80 são fatais. No último ano, uma doença semelhante ceifou as vidas de 30 toxicómanos no Reino Unido e Irlanda.

Em Portugal não foi detectado nenhum caso desta "bactéria que come carne". Segundo afirmou ao DN, Graça Freitas, da Divisão de Doenças Transmissíveis da Direcção-Geral de Saúde (DGS), "não temos conhecimento de qualquer caso". O ano passado houve um alerta europeu sobre o assunto o que levou a DGS a contactar os hospitais portugueses no sentido de apurar a existência de algum doente. "Os hospitais foram muito colaborantes e todos responderam no sentido negativo".

Historial

A fascite necrosante era conhecida no século XIX como "úlcera maligna", "úlcera gangrena pútrida", "úlcera phagedena" ou "gangrena hospitalar", entre muitas outras designações. No entanto, apesar das infecções operatórias serem comuns na era em que não havia assépsia, a gangrena era rara. Foi em 1871 que Joseph Jones descreveu pela primeira vez a fascite necrosante nos Estados Unidos, mas hoje os leigos chamam-lhe "bactéria que come carne". Embora o termo seja um pouco sensacionalista, descreve essencialmente o que a bactéria aparentemente faz no organismo dos seres humanos. Esta doença também já tinha sido historicamente mencionada por Hipócrates como "erisipela".

in Púlico, 13 de Julho de 2001

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