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PROCARIONTES
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| O FIM DA ERA DOS ANTIBIÓTICOS |
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O Um estudo científico desenvolvido em Portugal analisou três mil crianças saudáveis a frequentarem infantários e concluiu que a maioria era portadora de bactérias resistentes aos antibióticos. Mais: num período de quatro anos, a percentagem de resistência aumentou consideravelmente numa bactéria específica, Streptococcus pneumoniae. Entre 1996 e 1999, uma equipa multidisciplinar de cientistas portugueses, coordenada pela prof. Hermínia Lencastre, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), avaliou um vasto grupo de crianças entre os seis meses e os seis anos, de 21 infantários e jardins de infância de Lisboa e Oeiras. O estudo incidiu sobre a colonização por três bactérias específicas: Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e Moxarella catarrhalis, conhecidas por estarem implicadas em certas infecções do trato respiratório alto ou nas otites do ouvido médio. Com a autorização das famílias, os cientistas procederam no Inverno à colheita de amostras de secreções nasofaríngeas das crianças em vários períodos ao longo de quatro anos, com vista a perceberem a incidência de portadores destas bactérias, se são ou não resistentes e qual o seu mecanismo de resistência, bem como os factores de risco associados. As crianças são um grupo privilegiado de estudo, porque "o seu sistema imunitário está menos desenvolvido, estão circunscritas ao espaço do infantário, têm infecções frequentes e consomem antibióticos", explicou ao DN Ilda Sanches, que apoia Hermínia Lencastre na coordenação do projecto. Adverte, porém, que estas crianças "não estão em risco só por estarem num infantário. As bactérias podem disseminar-se e algumas são resistentes a antibióticos. Todos estamos sujeitos a esta realidade". Ainda em fase de execução, a pesquisa já permitiu concluir que a maioria das crianças avaliadas é portadora de bactérias potencialmente perigosas para a saúde e que essa percentagem subiu significativamente em relação a Streptococcus pneumoniae: entre 1996 e 1999, a incidência passou de 47 por cento para 64 por cento das 3048 crianças estudadas. Por outro lado, os estudos microbiológicos realizados demonstraram que muitas dessas bactérias eram resistentes aos antibióticos mais comuns, devido em parte ao seu consumo excessivo e ainda à facilidade de transmissão dessas bactérias no interior dos infantários. "Pudemos verificar, através da informação dos pais, que a maioria daquelas crianças tinham tido otites ou amigdalites", sublinha Ilda Sanches. Muitos pais, preocupados com as infecções frequentes dos seus filhos, anseiam que o pediatra receite um antibiótico que ponha fim ao sofrimento. Mas desconhecem que nem sempre essas infecções são devidas a bactérias, mas sim a vírus, sobre os quais os antibióticos não têm qualquer efeito. Mais importante é saber que o antibiótico destrói as bactérias sensíveis, mas não tem acção sobre as resistentes, que aproveitam para se multiplicarem. Ou seja, o uso repetido ou indevido destes medicamentos facilita o aparecimento de bactérias resistentes. Por isso, só o médico está capacitado para saber quando é que uma infecção exige ou não a toma de antibiótico. Os investigadores descobriram ainda que "cada infantário parece ser uma unidade epidemiológica autónoma". Ou seja, apresenta uma microbiologia própria, com bactérias particulares. A bióloga refere, no entanto, terem sido encontrados em vários infantários "grupos de bactérias geneticamente relacionadas, os chamados clones, iguais em termos genotípicos, conhecidos como epidémicos e disseminados por vários países". Do conjunto de conclusões, os investigadores manifestam-se particularmente surpreendidos com a elevada resistência aos antibióticos - sobretudo à penicilina e à eritromicina, embora estudos feitos noutros países tenham chegado a resultados idênticos.
in Público, 16 de Janeiro de 2001
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