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PROCARIONTES
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| EXTREMÓFILOS FORMAM BIOSFERA SUBTERRÂNEA |
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Até há bem pouco tempo pensava-se que a vida só poderia existir em condições próximas daquelas a que estamos habituados. Na verdade, sabe-se hoje que os limites térmicos e ambientais das formas vivas estendem-se por valores muito mais amplos, podendo muitos organismos vivos aguentar temperaturas abaixo dos 100 graus centígrados negativos e algumas bactérias reproduzirem-se com facilidade acima do ponto de ebulição da água. Estes seres são geralmente conhecidos por extremófilos e o seu estudo mostra-se hoje de enorme importância para avaliarmos não apenas a origem da vida na Terra, mas a possibilidade de ela existir noutros locais do Universo. Há muito que se conheciam pequenos seres das profundidades continentais, em grutas ou ambientes menos favoráveis, como os reservatórios de gás natural e petróleo, mas foi com surpresa que se reconheceu a existência de perfeitas comunidades bióticas, nos meios mais hostis, como rochas sedimentares e outras, a mais de dois quilómetros de profundidade. Em um ambiente de completa escuridão, sem oxigénio, e na ausência de alimentos orgânicos, os cientistas têm descoberto inúmeras espécies de bactérias primitivas que proliferam e se encontram bem adaptadas a essa nova biosfera. No geral, a biosfera é o termo que designa a totalidade de seres vivos que habitam a Terra ou o espaço ocupado pelos mesmos seres, mas os seus limites, contrariamente ao que antes se pensava, são muito mais alargados. Por incrível que possa parecer, a vida distribui-se pelas mais variadas condições, mostrando-nos aspectos de adaptação e sobrevivência de enorme importância para pensarmos na possibilidade de vida para além da Terra, embora ainda não existam nenhumas evidências da sua existência. Aqui, no Planeta Azul, a altitudes de mais de 30 quilómetros acima da estratosfera, onde os índices de oxigenação são quase nulos, a temperatura é inferior a 40 graus negativos e os níveis de radiação cósmica e de raios ultravioletas do Sol são consideráveis, é possível encontrar inúmeras comunidades de microrganismos. Num extremo quase oposto acham-se os seres que vivem em fontes de água quente, como as do Parque de Yellowstone, nos Estados Unidos. Estas fontes apresentam-se quase sempre com cores surpreendentes: vermelha, amarela ou verde, que em muitos casos resultam de formações cerradas de microrganismos, sobretudo de algas azuis-verdes. Estas, juntamente com umas tantas bactérias, conseguem viver em água acima de 80 graus centígrados. Também nos fundos oceânicos, e a profundidades de quatro mil metros, na dependência de aparelhos vulcânicos activos e na ausência completa da luz solar, assistimos a grandes comunidades de seres vivos, espécies até há pouco desconhecidas para a ciência e que dependem de uma síntese química que algumas bactérias realizam a temperaturas superiores às da água em ebulição. Ainda mais incrível tem sido a descoberta de outras bactérias termófilas, encontradas a profundidades variadas, e que vivem em plena associação com a rocha envolvente. Um exemplo é o do furo realizado perto de Hanford, Washington, onde a dois mil metros, em rochas outrora formadas à superfície, vivem bactérias há vários milhares de anos, pensando muitos cientistas que elas são descendentes dos microrganismos da idade dos dinossáurios. São estes seres, de coloração esverdeada, que a fotografia ao lado representa, mostrando a pormenorização um aspecto microscópico da nova bactéria, devidamente designada por "Bacillus infernus". Todas estas descobertas datam de um recente esforço norte-americano para o estudo da biosfera subterrânea - um mundo desconhecido e que poderá ajudar a compreender as relações da vida com o meio mineral e os ambientes mais típicos da Terra primitiva. Nos últimos anos, este projecto tem mostrado que o mundo subterrâneo, bem abaixo dos nossos pés, suporta uma película viva que, em alguns casos, atinge mais de três mil metros de profundidade. Não se compreende bem como esta biosfera "floresce" a tais profundezas, mas as pesquisas e recolhas mostram como ela é fértil, concentrando-se nos poros e nas inúmeras fracturas das rochas, que os geólogos não esperavam encontrar a tamanhas distâncias da superfície. Até agora, os investigadores envolvidos neste projecto recolheram mais de oito mil amostras separadas de micróbios das profundidades, prevendo-se que os estudos futuros permitam identificar muitos mais, adicionando outras novas espécies. Com efeito, "esta vida subterrânea pode contribuir para uma fracção significante do total da biomassa terrestre", conforme afirmou, recentemente, o geólogo T. Onstott, da Universidade de Princeton, responsável por uma destas sondagens para a procura de vida em profundidade. Em declarações, este investigador vai mais longe e diz que "o estudo destas novas espécies de microrganismos, para lá de nos mostrar a capacidade de adaptação da vida na Terra, pode ajudar-nos a compreender a origem da própria vida, um dos maiores e mais interessantes enigmas de sempre". É que muitos destes organismos correspondem a verdadeiros "fósseis vivos" dos tempos primordiais, uma altura em que as formas de vida actuais se encontravam longe de estar desenhadas. Os biólogos também se mostram intrigados com estas novas comunidades bióticas. Para responderem às dúvidas, usam técnicas genéticas recentes, examinando assim as relações entre os organismos subterrâneos e aqueles que vivem à superfície. O seu trabalho parece mostrar que o género "Bacillus", abundante à superfície, aparenta ser proveniente de seres inferiores, semelhantes aos que agora tem sido descobertos em profundidade. Esta descoberta leva-nos a uma questão bem mais intrigante: poderão as formas de vida, que conhecemos no nosso ambiente, serem oriundas de espécies primitivas, que outrora viveram em profundidade? Ninguém pode responder ao certo, mas algumas evidências merecem consideração. Para a microbiologista Sandra Bauer, do Instituto Politécnico Rensselaer, em Nova Iorque, o estudo comparativo das bactérias de profundidade com algumas da superfície mostra relações genéticas que sugerem uma nítida filiação. Alguns organismos de profundidade podem ter migrado para a superfície e ter dado origem a muitos dos micróbios do mundo que nos rodeia. Mais enfático é o doutor Todd Steven, um microbiólogo do Pacific Northwest Laboratory, no qual o estudo dos seres de profundidade, obtidos nas várias sondagens realizadas, mostra que o espaço subterrâneo foi favorável à origem e desenvolvimento das primeiras formas de vida. Da mesma opinião é o professor Thomas Gold, da Universidade de Cornell, que no seu recente livro ("The Deep Hot Biosphere", Copernicus, New York, 1999) defende ter a vida sido originada em profundidade e, posteriormente, ter-se deslocado para a superfície, um meio que desde os primórdios se tornou progressivamente mais hospitaleiro. Para Gold, estas bactérias, agora descobertas, assemelham-se ao grupo das arqueobactérias, as ascendentes de muitas formas vivas actuais. O seu estudo auxiliará não apenas ao melhor conhecimento da origem da vida na Terra, mas igualmente ao estabelecimento de rigorosas linhas de investigação na procura de vida para além do nosso planeta.
in Jornal de Notícias, 29 de Julho de 1999
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