|
PROCARIONTES
|
| CIENTISTAS DESCOBREM MICRÓBIOS EM HIBERNAÇÃO HÁ 2800 ANOS NO LAGO VIDA |
![]() |
|||||
|
O Lago Vida, nos Vales McMurdo da Antárctida, é afinal um oásis de vida microbiana, embora nada acolhedor. Até agora, pensava-se que este antigo lago, de cinco quilómetros de comprimento, não passava de um enorme bloco de gelo. Mas cientistas norte-americanos descrevem na última edição da revista "Proceedings of the National Academy of Sciences" como descobriram que aquele habitat inóspito esconde vida microbiana conservada em latência há 2800 e pronta a acordar de novo, se as condições forem favoráveis. A equipa coordenada por Peter Doran, da Universidade de Illinois, em Chicago, EUA, perfurou a espessa camada gelada do Lago Vida para obter "cores" - cilindros que permitem analisar as várias camadas de gelo até uma profundidade, neste caso, de 19 metros. E descobriram que aquele que enorme bloco gelado esconde material orgânico e sedimentos, num lençol de água líquida e extremamente salgada, que podem explicar como é possível a vida em ambientes inóspitos e gelados. Os dados podem ajudar na investigação sobre os ecossistemas possíveis em locais que se pensava serem incompatíveis com a vida como o famoso Lago Vostok, também na Antárctida - um antigo lago que hoje se encontra a quatro quilómetros de profundidade, na placa gelada oriental antárctica. Ou até no planeta vermelho: "Acredita-se que Marte tenha tido um passado muito rico em água, e se tal chegou para que a vida nascesse, ela pode muito bem estar conservada, como acontece no Lago Vida", relatam os investigadores. A água encontrada a 16 metros de profundidade tem tanto sal - é sete vezes mais salgada que a água do mar - que, por isso, permanece em estado líquido mesmo a temperaturas inferiores a dez graus Celsius negativos, por baixo de uma espessa camada de gelo que inibe a entrada que qualquer tipo de luz. "Foi um trabalho muito duro. Acampámos durante duas semanas, com temperaturas de 40 graus negativos", conta Doran. É neste ambiente, dizem os investigadores, que se escondia a história química e biológica dos antigos lagos, como explica a equipa: "Este ambiente gelado esconde um oásis de vida num meio que considerávamos impossível para qualquer tipo de vida. As formas de vida encontradas podem valer-se do facto de possuírem substâncias que lhes permitem viver nestas condições, como anticongelantes e outros inibidores de formação de gelo nos seus organismos, que lhes permitem entrar numa espécie de hibernação e voltar à vida quando se encontrarem de novo em água no estado líquido". Doran fala essencialmente de micróbios, muitos deles com 2800 anos, que os cientistas conseguiram reavivar. Os especialistas contam ainda como o próprio gelo ajuda a preservar intacto o ADN dos microrganismos, tornando este Lago Vida num museu vivo. O estudo deste ADN facilitará a reconstituição da história destas formas de vida.
in Público, 17 de Dezembro de 2002
|
||||||
|
|
© CienTIC - José Salsa, 2003 - optimizado para 1024 x 768 |