FUNGOS
PORTUGUESES "ACABAM" COM RESISTÊNCIA DOS FUNGOS


Uma equipa de investigação portuguesa descobriu os mecanismos de resistência aos fármacos, que torna os fungos um drama dos cuidados intensivos. Quarta causa de infecção hospitalar e mortal em mais de metade dos casos em que a acção fungicida é sistémica, leveduras como a candida têm assumido uma importância crescente, sobretudo porque não existe muita farmacologia disponível.

A equipa, liderada por Acácio Rodrigues e Cidália Pina Vaz, do Serviço de Microbiologia da Faculdade de Medicina e Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, revolucionou a detecção da resistência ao fluconazol (princípio activo antifungíco), que se tornou mais rápida e segura. Esta nova técnica, que substitui o método clássico da citometria, consegue numa hora provar o que antes demorava cerca de dois dias.

O tempo é um factor essencial numa infecção que, quando presente na corrente sanguínea, actua de forma rápida e letal. Os fungos são um dos maiores agentes infecciosos nos hospitais e o problema reside no facto de toda a gente ser, normalmente, portadora deste tipo de leveduras, que atacam quando as pessoas estão mais vulneráveis. Quando não é mortal, este agente causa grande morbilidade, ou seja, forte mal-estar. Agora, "existem crescentemente mais casos que, por seu lado, são cada vez mais graves", explica o investigador.

"É virtualmente impossível termos uma cirurgia sem uma infecção deste tipo", refere Acácio Rodrigues, que além de investigador, trabalha nos Cuidados Intensivos do Hospital São João, no Porto. Assim, os fungos são particularmente agressivos em doentes do pós-operatório, imunodeprimidos (com doenças como a sida) ou transplantados. Até porque, explica ainda o investigador, um dos factores de promoção desta infecção é o facto de os doentes serem sedados, para melhor aderirem às terapias.

Perante uma infecção, os clínicos são confrontados com uma tecnologia, afirma Acácio Rodrigues, "mais morosa e tardia" relativamente à resistência. Para combater a doença, "agradeceriam uma resposta com prontidão" relativamente à susceptibilidade do fungo ao fármaco, mas, mais do que melhorar a detecção dessa situação, a equipa do Porto descobriu, sobretudo, formas de ultrapassar a resistência.

Os investigadores detectaram através de marcadores florescentes a existência de pequenas "bombas" que expulsam o fármaco - chamado mecanismo de efluxo. O objectivo da equipa portuense foi, segundo explica Acácio Rodrigues, "potenciar o efeito do fármaco que mata a célula". Ou seja, detectar formas de reversão da resistência. A investigação - que recebeu o prémio Pfizer, um dos reconhecimentos de maior prestígio da investigação entregue em Portugal - incidiu assim sobre as formas de travar o efluxo, um mecanismo também presente nas células neoplásicas.

Depois de terem tentado reverter a resistência com vários fármacos, os investigadores observaram, na maioria das estirpes estudadas, o bloqueio do mecanismo de efluxo quando atacaram os fungos com compostos, como o verapamil, estradiol, progesterona e ibuprofeno. Algumas destas substâncias têm apenas importância académica, como é o caso do verapamil, por ser tóxico nos humanos. Mas o ibuprofeno, princípio activo utilizado em sintomatologias variadas, tem grandes potencialidades.

A questão da resistência é particularmente importante no caso dos fungos porque não existe, à partida, um menu muito alargado de fármacos disponíveis. Quando uma levedura não cede perante a medicação, pode ser muito difícil encontrar terapêuticas substitutas. Assim, referem os investigadores, os compostos ensaiados podem, a curto prazo, "ter aplicação terapêutica nos casos de resistência ao fluconazol, abrindo-se deste modo novas perspectivas terapêuticas para este fármaco".

in Expresso, 16 de Junho de 2002

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