FUNGOS
A HISTÓRIA DOS COGUMELOS MALVADOS


As armilárias, cogumelos, em geral nocivos para as espécies lenhosas, entre os quais os sobreiros e as videiras, foram vistas durante muito tempo, e até à década de 70, como uma espécie de maldição misteriosa dos locais onde predominavam. Conhecia-se então apenas uma espécie de armilária, a "Armillaria mellea", que era capaz de destruir plantações inteiras de resinosas, como foi verificado no Canadá. Mas havia muito ainda por descobrir sobre estes gigantes do mundo dos fungos, cujos rizames podem estender-se por quilómetros e quilómetros, o que já lhes valeu o título de maior organismo vivo. Com o advento da biologia molecular e os testes de ADN, o verdadeiro mundo das armilárias revelou-se: sete espécies diferentes com muitos segredos por revelar.

A história das armilárias podia ser uma história daquelas que contamos para adormecer as crianças, onde entrariam uma espécie de cogumelos malvados. Um conto onde nem sequer faltaria uma casa perdida na floresta: depois de um longo caminho rodeado de árvores e de verde, chega-se à Estação Florestal Nacional, bem no fundo da Estação Agronómica Nacional, em Oeiras.

Helena Bragança, investigadora daquele centro de investigação, veste a bata branca e segura num disco de vidro onde uma estrutura alaranjada, que quase parece uma estrela do mar versão filme de terror, sai do frigorífico e posa para a máquina fotográfica. "São lindas, não são?", afirma, enquanto elogia as formas que as armilárias que cultiva ali podem assumir. Formas e cores que até já foram elogiadas e copiadas por "designers".

Helena Bragança entregou-se ao imenso mundo das armilárias por sugestão de Natércia Santos, investigadora principal da Estação Florestal Nacional, com quem trabalha. "Estavam sempre a aparecer imensos artigos sobre os efeitos nefastos provocados por armilárias e nós não tínhamos registos recentes nenhuns". Para resolver esta falha, Helena Bragança adoptou estes misteriosos cogumelos, estagiou em França, onde fez recolha de espécies, e trabalhou depois por cá, na área da biologia molecular, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com a equipa de Rogério Tenreiro: "Acabei por ter resultados algo inovadores, que continuam à espera de ser publicados em artigo."

As armilárias foram quase desconhecidas por muito tempo, pensando-se que todos os exemplares se restringiam a uma única espécie, a mais conhecida, a "Armillaria mellea", que vai buscar o nome ao tom mel dos seus cogumelos. Esta é uma das mais nocivas para as espécies lenhosas, entre elas o sobreiro e a vinha, e a mais comum em Portugal. Hoje sabe-se que, para além da "Armillaria mellea", a "Armillaria ostoyae" e a "Armillaria borealis" também são nocivas para as lenhosas. E há ainda a "Armillaria cepistipes" e a "Armillaria gallica", estas duas basicamente decompositoras. "A parte visível destas armilárias são uns lindos cogumelos, cujo carpóforo, o chapelinho que conhecemos, tem um bonito anel envolvente que as distingue de outras duas espécies, a "Armillaria abescens" ou a "Armillaria ectypa", esta última muito rara.

A função decompositora é muito característica nos fungos, que nem sempre assumem o papel de vilões na história, como explica Helena Machado, outra investigadora da equipa. Helena Machado estuda um fungo, o "Hebeloma crustuliniforme", que pertence aos chamados fungos micorízicos, ou seja, que vivem em simbiose com as plantas. Numa colecção de pequenos castanheiros, Helena Machado observa como este fungo ajuda as árvores no seu ciclo de crescimento. Pega num vaso, levanta a planta por inteiro da terra, e mostra os filamentos que envolvem toda a raiz: "Para além de aumentar a capacidade de absorção de água e nutrientes da planta, protege-a contra outros fungos, mas não da armilária, que é muito forte".

Todas as armilárias estendem os seus rizames por quilómetros e quilómetros, o que fascina os especialistas. Daí as pequenas amostras que Helena Bragança cultiva em vidro assumirem uma forma estrelada, estendendo os rizames sempre à procura de mais. Com a biologia molecular, verificou-se que ADN com as mesmas características era recolhido do micélio, conjunto de filamentos destes fungos, em sítios separados por quilómetros de distância: "Trata-se de um único organismo que vai assumindo estruturas diferentes", explica Helena Bragança. As armilárias ganharam então a denominação comum de maiores organismos vivos. "Mas nada que se compare a um elefante", como acrescenta, num tom divertido, Natércia Santos.

Como algumas espécies de armilárias atacam as árvores não se sabe. Mas sabe-se que atacam. Começam pela raiz, trepam pela árvore e destroem completamente o cerne, a parte mais valiosa da árvore, que fica praticamente oca, provocando aquilo a que se chama a podridão agárica: "Pensa-se que é o próprio organismo que produz substâncias nocivas à árvore", explica a investigadora. Mas o facto de as árvores crescerem lentamente, levando anos e anos, não ajuda à identificação dessas substâncias e ao desenvolvimento de antídotos para este ataque: "O crescimento é tão demorado, chega a ser um trabalho de gerações, e no fim acabamos por encontrar muita coisa", explica Helena Bragança, acrescentando que no montado é também a "Armillaria mellea" que surge: "A doença dos sobreiros é um mistério por isso. Envolve muita coisa, essencialmente porque o sobreiro é uma espécie de crescimento muito lento, o que representa um quebra-cabeças para os investigadores."

A situação mais grave provocada pelas armilárias ocorre nos Açores: "As armilárias atacam as criptomérias, árvores do tipo do cedro, a espécie florestal com mais representação no arquipélago. Chegam a atacar 90 por cento das áreas." Segundo a especialista, a solução mais segura para acabar de vez com esta espécie de cogumelos malvados é cortar o mal pela raiz: "Nas áreas em que é detectada a armilária é preciso ter a coragem de arrancar tudo, o que é difícil para os nossos agricultores, que são muito agarrados às suas culturas."


Nome vulgar: Armilária
Nome científico: "Armillaria mellea"
Distribuição: Apresenta uma distribuição geográfica muito extensa, que coincide com a das plantas lenhosas, estando presente em praticamente todas as latitudes
Descrição da espécie: É um género absolutamente ímpar nos fungos. Os seus rizames estendem-se por quilómetros e quilómetros, provocando uma doença radicular que origina a chamada podridão agárica, destruindo o cerne da árvore. Em Portugal, a situação mais crítica ocorre entre o cedro dos Açores, mas os investigadores estão também atentos à situação no montado e na vinha.

in Público, 30 de Setembro de 2000

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