FUNGOS
O MEDO DOS COGUMELOS SILVESTRES


Portugal, pelas características mediterrânicas dos seus bosques, é um dos países europeus com maiores recursos em cogumelos silvestres, mas é também um dos mais micofóbicos, ou seja, onde o medo de os comer é maior. E como temem pela sua saúde, os portugueses comem cada vez menos cogumelos, razão por que as mortes por intoxicação têm vindo a diminuir. No ano passado, morreu uma criança no distrito de Coimbra e este ano ainda não terá falecido ninguém.

Há todas as razões do mundo para ser prudente na ingestão de cogumelos, mas não há motivo nenhum para os deixar de comer, desde que se saiba o que se come. "Se só comermos aqueles cogumelos que tradicionalmente sempre comemos e que conhecemos bem, nunca teremos qualquer problema", diz Josep Piqueras, médico do Centro Hospitalar de Val d' Hebron, em Barcelona, e um dos vários especialistas que participaram este fim-de-semana, em Mogadouro, no segundo Encontro Micológico Transmontano. O clínico, especialista em micotoxicologia, garante que "as intoxicações só acontecem quando se quer complicar" e se ingere espécies de cogumelos sem conhecer com rigor os seus efeitos.

Dos milhares de espécies de fungos que florescem no território nacional, há inúmeras que são altamente tóxicas e algumas apresentam grandes semelhanças com outras que são comestíveis. É também vulgar encontrar na mesma família espécies de grande valor alimentar e outras altamente tóxicas.

É o caso das amanitas. A "Amanita phalloide" e a "Amanita virosa" são responsáveis pela maioria dos envenenamento com consequências mortais, devido à presença em ambas da amanitina - uma substância tóxica que destrói o fígado. As duas têm semelhanças com algumas espécies de agáricos, que são comestíveis. E na mesma família das amanitas há uma, a "Amanita cesarea" (ou amanita dos césares), que é comestível e altamente apreciada.

Na família das lepiotas há também algumas espécies mortais. Mas um dos cogumelos mais consumidos em algumas zonas do interior Norte é igualmente uma lepiota, a "Macrolepiota procera", conhecida por frade, roque ou marifusa. Outra espécie de risco que se presta a confusões é a "Paxillus involutus". Comido cru, é dos cogumelos mais venenosos, mas se for cozinhado tem fama de ser excelente.

Para quem gosta de correr riscos com a ingestão de cogumelos, sobra uma boa notícia. Segundo Josep Piqueras, hoje em dia, com os avanços na área da micotoxicologia, "apenas cinco por cento das intoxicações graves chegam a ser mortais". E sabe-se também que muitos dos envenenamentos provocados por cogumelos se devem à ingestão de quantidades exageradas ou de exemplares já estragados.

Seja como for, os portugueses ainda não aderiram à moda dos cogumelos silvestres, tão implantada em Itália, por exemplo. Talvez por isso, um importante recurso natural esteja a ser completamente desaproveitado, a crer em Gabriel Moreno, catedrático de Biologia Vegetal da Universidade de Alcalá de Henares, em Madrid: "Só dois a três por cento do potencial micológico existente em Portugal está a ser aproveitado."

O consumo interno de espécies silvestres é muito reduzido. À excepção de alguns hotéis e restaurantes de luxo, que têm cozinheiros formados em países com tradição no consumo de cogumelos, não há compradores para estes fungos. O produto da recolecção que se vai fazendo em algumas zonas do interior é quase integralmente vendido fresco para intermediários espanhóis, que, depois o revendem, com lucros substanciais, para alguns países europeus, em particular Itália e França. Nestes países, sobretudo no primeiro, os cogumelos são depois elaborados e transformados em inúmeros produtos alimentares, gerando novamente enormes mais-valias.

Um dos cogumelos mais procurados em Portugal pelos intermediários espanhóis é o "Boletus edulis", precisamente uma das espécies mais consumidas em Itália. Uma das raras empresas nacionais que fura o circuito existente no mercado dos cogumelos silvestres, se não a única, situa-se em Meã, no concelho de Sátão, distrito de Viseu. A Frutisilves, assim se chama a empresa, compra cogumelos do Algarve a Trás-os-Montes, em especial "Boletus edulis", "Cantharellus cibarius" (ou rapazinhos) e "Tricholoma equestre". O grosso da produção, que sofre alguma elaboração (parte é congelada, outra é seca ou cozinhada e depois congelada) é vendida para a Montiel, uma das maiores empresas francesas de cogumelos. No ano passado, a Frutisilves facturou cerca de 100 mil contos. Já é alguma coisa.

in Público, 5 de Novembro de 2000

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