EVOLUCIONISMO

REVER O EVOLUCIONISMO
Texto de Julio Santamaria

Perante os nossos olhos surge um maravilhoso espectáculo. Urna infinidade de seres que se agitam sobre a terra, que voam pelos ares, que deslizam sob as águas. Ou ainda outros que permanecem imóveis a não ser que o vento os agite, os vegetais, cheios de variedade e colorido (1).

O mundo vivo tem estado sempre presente ante os homens e parece lógico pensar que estes tenham reflectido sobre a sua procedência, qual a causa porque apresenta tal diversidade e, ao mesmo tempo, qual a razão para tão grande número de semelhanças.

Actualmente, estas perguntas deparam com varias tentativas de resposta, de acordo com as chamadas teorias evolucionistas, mas isto nem sempre aconteceu assim. Mais ainda, pode dizer-se que essas interrogações nem sequer tinham sido formuladas há aproximadamente dois séculos.

As teorias surgidas a partir de então pressupõem que os seres vivos procedem de outros mais simples, os quais, por sua vez, derivam de outros, ainda mais simples e assim sucessivamente. Ou seja, isto significa que os seres vivos nem sempre tiveram a forma que apresentam actualmente e que, pelo contrário, ao longo de períodos de tempo assaz prolongados, se foram transformando. É este facto que constitui o principio do chamado transformismo, oposto a um modo de pensar que afirmava que as plantas e os animais permaneceram sempre iguais, sem variar desde a sua criação, mantendo as suas formas fixas, que se chama fixismo.

Dá-se o nome de teorias evolucionistas às varias construções científicas que pretendem explicar o modo como se verificam as transformações nos seres vivos e quais são as causas que as produzem. Qualquer dessas teorias implica a aceitação de que á continuidade dos caracteres morfológicos se une uma tendência para a modificação de algumas estruturas e para o aparecimento de outras novas.

Actualmente, as teorias evolucionistas estão amplamente distribuídas através de livros, revistas e até filmes. É fácil para qualquer pessoa que o deseje, ter acesso ao conhecimento do evolucionismo e pode fazê-lo através de diversas publicações, geralmente rotuladas de divulgação científica. Isto pode levar a crer que tais teorias, algumas delas pelo menos, estão totalmente demonstradas, sem possibilidade de refutação. Esta impressão é totalmente falsa. Não existe, actualmente, nenhuma teoria capaz de explicar a evolução de modo absolutamente satisfatório, e, em especial, quais são as causas que a motivam.

Nas páginas que se seguem apresentar-se-á uma panorâmica histórica dos primeiros tempos do evolucionismo, da sua situação actual e dos argumentos utilizados em apoio das teorias. mas também se exporão as objecções que são apresentadas por alguns sectores científicos, quanto á validade das teorias relativas á evolução dos seres vivos.

Pode causar estranheza o facto de que, após cerca de duzentos anos de estudos sobre esta matéria, ainda não se disponha de teorias que permitam resolver, de modo categórico, as incógnitas existentes acerca da origem e da evolução dos seres vivos. Mas é o que acontece, e ninguém pode assegurar que se chegue a um dia em que a Ciência seja capaz de resolver os enigmas que se encontram agora proposto.


A história do Evolucionismo: um francês algo louco

A história das investigações relativas à evolução constitui uma novela plena de interesse, na qual participam numerosos personagens, os cientistas, alguns dos quais dedicaram a sua vida inteira à investigação e que, inclusive, por sua causa sofreram graves dissabores e sacrifícios. Vamos, pois, reduzir o relato a umas quantas biografias correspondentes àqueles que exerceram maior influencia no desenvolvimento das teorias. A primeira figura que ocorre é a de um francês algo louco.

Na Picardia, numa região situada no norte de França, nasce em 1974, Jean Batptiste Pierre Antoine de Moinet, Chevalier de Lamarck, no seio de uma família de ilustre ascendência, mas de muito escassos recursos económicos. Quando chega o momento de escolher o futuro de Jean-Baptiste, o pai decide que se dedique à Igreja, o que era algo que não agradava absolutamente nada ao jovem Lamarck. Por essa razão, ao morrer o pai quando tinha dezassete anos, abandona o seminário e vai em busca de aventuras, alistando-se no exército. Naquele momento, a França encontrava-se empenhada na Guerra dos Sete Anos e nela tem, Lamarck, a oportunidade de participar, intervindo numa acção em que se porta valorosamente, pelo que é recompensado com a promoção a Tenente. Não obstante, percebe que o seu futuro na carreira das armas é muito duvidoso e, por isso, decide abandoná-la, dirigindo-se a Paris com uns poucos francos no bolso.

Na capital francesa leva uma vida em que se misturam a boémia e o estudo, e também as dificuldades económicas.

Em certa altura trava conhecimento com o Conde de Buffon, um cientista muito afamado, o qual Ihe consegue um emprego no jardim botânico, que era, então, conhecido pelo nome de Jardim Real. O vencimento que recebia era bastante escasso, mas, mesmo assim, dedica-se com interesse e entusiasmo à investigação.

A especialidade cultivada por Lamarck era a Botânica, sobre a qual já havia publicado, anteriormente, um livro com o título de Flora Francesa. Não obstante, o destino tinha-lhe reservado uma mudança na sua orientação, a qual foi, possivelmente, a causa da descoberta da sua teoria sobre a evolução

A situação económica de Lamarck foi sempre muito precária, o que não constituiu obstáculo para contrair casamento par quatro vezes e chegar a ter oito filhos.

Quando se encontrava no Jardim Real, ocorreu a Revolução Francesa, a qual não influenciou a vida de Lamarck ,a não ser num certo aspecto. O novo regime realizou a reorganização das tarefas científicas, em que se incumbia Lamarck, juntamente com outro investigador chamado Geoffroy Saint-Hillaire, do estudo da Zoologia.

Ambos decidiram, de comum acordo, dividir o reino animal em dois grandes grupos: vertebrados e invertebrados, cabendo, a Lamarck, o segundo.

Tal facto constituiu, para Lamarck, uma mu·dança radical. Havia-se dedicado, anteriormente, à Botânica e agora tinha de enfrentar um mundo que Ihe era quase totalmente desconhecido. Os invertebrados abarcam aproximadamente noventa por cento das esgaceis animais e para o seu estudo só se dispunha de uma classificação realizada por Lineu, a qual reunia toda a fauna invertebrada, somente em dois gruipos: insectos e vermes.

Lamarck compreendeu, imediatamente, que havia que estabelecer uma nova classificação de maior amplitude e pormenor e, para tal, concebe um plano. Fixa-se numa série de sistemas fisiológicos e órgãos anatómicos e situa os grupos em relação à presença ou ausência dessas partes, assim como à sua maior ou menor perfeição. Tudo isto constituiu um amplo trabalho em que aplicou bastantes anos. O resultado foi um sistema classificativo que apresentou num livro a que deu o título de Système nes animaux sans vertébres. Acerca da qualidade deste trabalho, basta dizer que é a base da classificação que, actualmente, e com muito pequenas variações, continue a ser utilizada (2).

Este estudo, realizado sobre os animais, leva-o a reflectir sobre a progressiva diferenciação que se verifica à medida que se sobe pela árvore da vida, desde os seres mais simples até aos mais complexos. Perante ele, surge uma escala de complexidade crescente, como se os seres fossem adquirindo, progressivamente, novas estruturas aperfeiçoadas.

O resultado dos seus estudos, é a publicação de um outro livro, intitulado Recherches sur I'organisation des corps vivants, em que expõe as suas teorias acerca da evolução animal (3).

Lamarck, porém, teve poucas compensações pelo seu trabalho tenaz e paciente. Foi nomeado académico, da Academia de Ciências Naturais, ainda que tal facto não tenha significado qualquer melhoria para a sua situação económica. Já no fim da sua vida começou a ressentir-se da falta de vista, em consequência dos largos dias de trabalho ao microscópio, até que ficou completamente cego. As suas teorias também não foram demasiado apreciadas no seu tempo, pois não era considerado como um autêntico cientista, mas sim como um excêntrico. Devido a esse facto a sua fama não foi grande, sendo o seu nome conhecido, mundialmente, mas só depois da sua morte, quando as teorias darwinistas começaram a entrar no seu apogeu. Em 1829, morre em Paris.


Um inglês muito consciencioso

Charles Darwin, nasceu em 1809. O pai era um médico, com uma boa posição, que desejava que o filho Ihe seguisse os passos na sua profissão. Por esse motivo, ao chegar a altura, Charles é enviado para a Universidade de Edinburgo, onde permanece durante pouco tempo, não porque não gostasse desses estudos, mas porque os mesmos o aborreciam. As suas inclinações iam para a caça e para a colecção de conchas, pássaros, rãs e pequenos animais marinhos. O pai acaba por resignar-se e o filho abandona os estudos de medicina e pensa em tornar-se sacerdote. O caso é que Charles Darwin também não sentia demasiada inclinação para a igreja, mas resigna-se, pensando que sendo eclesiástico poderá dispor de tempo suficiente para dedicar-se aos seus hobbies favoritos.

É enviado a Cambridge, para preparar a licenciatura. Durante a sua estadia, trava amizade com o seu professor de Botânica. É este que Ihe proporciona a oportunidade de fazer uma longa viagem numa expedição científica. Trata-se do bergantim de dez toneladas Beagle, com o qual vão ser realizadas várias comprovações de certas medidas cronométricas, para o que terá que navegar até à Terra do Fogo e à Patagonia, e dar a volta ao mundo. O convite feito a Charles Darwin é que faça parte do grupo científico, como naturalista.

O pai opõe-se inicialmente, mas acaba por dar a sua autorização e Darwin embarca no Beagle, que larga do porto de Davenport, em 1831, para realizar uma viagem que iria durar cinco anos. Durante todo esse tempo, Darwin dedica-se a coleccionar um grande número de exemplares da fauna de variadíssimos lugares do mundo. Ao mesmo tempo, anota, minuciosamente, as suas observações, obtendo uma abundante colecção de dados zoológicos, desconhecidos até então.

Aquando do seu regresso à Grã Bretanha, dedica-se ao estudo e classificação de todo o material recolhido durante a viagem. Durante a expedição observou uma série de aspectos singulares que o fizeram intuir o que, mais tarde, haveria de constituir a sua teoria sobre a evolução. Mas, prudentemente, decide não extrair conclusões definitivas, antes de estudar de um modo mais consciencioso todos os elementos de que dispunha. E, neste trabalho, leva vinte anos.

Quando já tem elaborada a sua teoria e se dispõe a dá-la a conhecer, recebe uma carta de um naturalista chamado Alfred Russell Wallace, que anexa um estudo em que é exposto, de um modo quase idêntico, a teoria que Darwin realizara sobre a evolução. Wallace havia trabalhado durante vários anos na matéria e tinha chegado a conclusões idênticas às de Darwin, de um modo totalmente independente. Na carta, incluso, pedia que o trabalho fosse apresentado, por Darwin, numa academia cientifica.

Charles Darwin sentiu-se aniquilado e, durante algum tempo, pensou em destruir o seu trabalho, para que ninguém pudesse suspeitar de que havia abusado da confiança depositada nele. Foi aconselhado por vários amigos, para que não tomasse tal atitude e, finalmente, o seu trabalho, juntamente com o de Wallace, foi apresentado numa sessão que foi realizada na Linnean Society. Mais tarde, publicou um livro em que expunha as suas investigações e que tinha o título abreviado de The Origin of Species. O título completo da obra era An Abstract on the Origln of Species and Varieties Through natural Selection on the Preservation of favoured Races in the Struggle for Life (4).

Os trabalhos de Darwin causarão uma grande comoção nos meios científicos, dando origem a numerosas e muito acaloradas discussões de que Darwin sempre procurou manter-se afastado, pois tinha um carácter sossegado e aprazível, que o tornava pouco predisposto para discussões de qualquer tipo. Além disso, a sua saúde tinha-se ressentido, pelo que decidiu ir viver, com a família, para a sua propriedade em Down. Ali, continuou a realizar os seus trabalhos de investigação, que não só se referiam a ampliações da sua teoria evolucionista, como versavam sobre aspectos muito diversos das ciências naturais.

Morreu em 1882, sendo enterrado na Abadia de Westminster, onde também repousa o corpo de Isaac Newton.


Na horta de um convento

Em 1822, nasceu no seio de uma humilde família de lavradores, Johann Gregor Mendel. Nos seus estudos escolares demonstra uma grande inteligência e o seu professor aconselha os pais a que o mandem para uma escola superior, mas estes não dispõem dos meios económicos. Contudo, conseguem que Gregor seja admitido no convento de Altbrunn, onde ingressa em 1843, e no qual permanece ate à sua morte ocorrida em 1884.

Desde a infância tinha sentido uma grande inclinação para a Botânica, a qual cultiva nos momentos que Ihe são deixados livres pelas suas obrigações religiosas e de ensino, a que se dedica por ordem ao abade do Convento. Dispõe de um pequeno terreno, com numerosos canteiros de ervilhas de cor, que são tratadas por Mendel, realizando a sua fecundação em condições rigorosamente controladas, de modo a poder estudar a transmissão hereditária dos caracteres (5).

Depois de vinte anos de experiências, elabora um estudo pormenorizado, no qual apresenta a observação de uma série de regularidades hereditárias, que se podiam expressar de forma matemática.

Envia o trabalho à sociedade Brunn para o estudo das Ciências naturais, onde é lido pelo próprio Mendel, sem que cause demasiado interesse entre os ouvintes, que não perceberam muito bem o que pretendia aquele monge agostinho com os seus trabalhos sobre ervilhas. O trabalho foi publicado como era costume, como todos os que eram apresentados na Academia, e, depois, totalmente esquecido.

E assim continuaria se um botânico holandês, chamado Hugo de Vries, não o tivesse descoberto em 1900. De Vries dedicava-se, precisamente, a uma investigação idêntica a prosseguida por Mendel e, por esse motivo, ao coscuvilhar nas bibliotecas, teve conhecimento do antigo estudo que o surpreendeu pelo seu rigor científico. De Vries deu-lhe, imediatamente, divulgação, tirando do anonimato aquele humilde frade, que tinha descoberto, sem o mais pequeno auxílio, os princípios da Genética, que desde então, são conhecidas com o nome de Leis de Mendel que podem ser apresentadas do seguinte modo:

1º - Todo o ser vivo é um complexo constituído por um número determinado de unidades independentes, hereditárias, e cada uma dessas unidades é independente das restantes.

2º - Cada par de caracteres contrastantes sofre a sua própria disfunção hereditária. Deste modo, por hibridação, pode obter-se todas as combinações possíveis.

3º - Os factores hereditários não são alterados, nem afectados pela sua complexa associação em cada híbrido.

O que Mendel chama unidades independentes hereditárias (1ª lei) é o que actualmente se chama genes, cada um dos quais e portador de um determinado caracter. Porém, este caracter pode estar associado a vários genes, com o mesmo resultado. Para a constituição de um novo ser, há genes trazidos por via paterna e outros pela materna, que se unem aos pares. Se ambos são iguais, o carácter que daí resulta é determinado univocamente. Se são diferentes prevalecerá aquele que se chama dominante, enquanto não se manifestar o carácter que vai unido ao outro tipo de genes, que se chama recessivo. Mas a associação de genes, que se constitui no momento da união das células, não é alterado por este facto. E isto dá lugar à manutenção, durante o curso das gerações dos caracteres hereditários, e à conservação de uma grande estabilidade entre as espécies.

Mais tarde, a Genética descobriria alterações acidentais dos genes, a que chamaria mutações, e às quais será feita referência mais adiante.


As teorias sobre a Evolução

Lamarck foi quem, pela primeira vez, expôs de um modo sistemático uma teoria acerca da evolução dos seres vivos. Ao elaborar a sua classificação zoológica no Jardim das Ciências Naturais de Paris (o nome novo dado ao Jardim Real, depois da Revolução Francesa), chega à dedução de que existe uma escala de crescente complexidade nos animais, que considera dever ser atribuída à transformação que vão experimentando com o fim de cumprir melhor as funções que Ihe permitem sobreviver. Os órgãos e sistemas animais nasceram pela necessidade de desempenhar certas funções, o que é expresso, abreviadamente, quando se diz que a função cria o órgão. E as condições do meio ambiente e o uso são o que aperfeiçoa esses órgãos, enquanto o seu não uso produz a atrofia e, finalmente, o desaparecimento.

São vários os exemplos que cita em apoio da sua teoria. Um deles refere-se sentido de visão da toupeira, que pouco Ihe é útil, já que vive debaixo da terra; por isso, é um animal quase cego. Outro exemplo clássico é o das girafas. Trata-se dum animal muito conhecido, devido, em especial, ao comprimento do pescoço. A girafa alimenta-se das folhas das árvores e isso obriga-a a esticar o pescoço para alcançar a folhagem que está mais alta, o que é causa para que cresçam, em comprimento, as vértebras cervicais.

Na sua teoria, Lamarck faz intervir uma espécie de acto de vontade dos animais na modificação da sua anatomia, como que um impulso interno que dirige a evolução. A teoria lamarckiana não foi bem acolhida, desde o princípio, por várias razões. Uma delas era que não podia aplicar-se o acto voluntário à evolução dos vegetais. Por outro lado, podiam aduzir-se múltiplos casos que a desmentiam, como, por exemplo, a prática da circuncisão entre os judeus e outros semitas, que se realiza há séculos, não motivou nenhuma modificação permanente ainda que eles compreensivelmente o desejassem.

Nos tempos de Lamarck não se conheciam as leis da hereditariedade que excluam a transmissibilidade hereditária dos caracteres adquiridos e a influência do uso ou desuso dos órgãos no seu desenvolvimento ou atrofia. Os avanços da Genética, que começa a ser conhecida no início do nosso século, fariam com que as teses lamarckistas fossem abandonadas definitivamente.

Não obstante, existe um facto singular de tempos recentes, que nem sempre é referido nas histórias do evolucionismo. Trata-se de um cientista da União Soviética, chamado Trofim Denissovitch Lysenko, o qual, em consequência de uns resultados, que dizia ter obtido numas experiências com certas plantas, defendeu que a influência do meio ambiente provoca modificações hereditárias. Não só defendeu este conceito, como usou os altos cargos que ocupou na esfera científica soviética para impor estes canteiros como doutrina oficial. Não se limitou a propugná-la, mas chegou a perseguir e mandar prender os seus compatriotas cientistas, que se atrevessem a discordar de tais opiniões. Lyssenko manifestou, publicamente, que existia uma Genética soviética que era, naturalmente, a verdadeira, e outra genética capitalista, que estava errada. Lyssenco chegou a ser Presidente da Academia de Ciências da U.R.S.S. e deputado do Soviete Supremo.

Charles Darwin, ainda que não estivesse de acordo com as ideias de Lamarck, pensou que a influência do meio ambiente podia ser a causa das modificações morfológicas dos seres vivos. Tinha chegado à concepção das suas teorias em consequência das observações realizadas na viagem do Beagle, e essas levaram-no a verificar várias circunstâncias.

A primeira delas é a certeza de que, efectivamente, os seres vivos estão sujeitos a variações. A segunda, consistia em que seres vivos se multiplicam muito rapidamente e, se o seu crescimento não se encontrasse travado, por alguma causa, a Terra ver-se-ia, muito rapidamente, superpovoada, de modo que a vida seria impossível de manter-se. Na sua biografia, Darwin narra que ficou muito impressionado com a leitura do livro de Malthus, que tem por título Um ensaio sobre a população. Aí se refere que o crescimento da população humana se realiza segundo uma progressão geométrica, enquanto os alimentos disponíveis só aumentam em progressão aritmética. Se este processo continuasse sem alteração, não tardaria a chegar o momento em que se daria um desequilíbrio mortal entre as populações humanas e os recursos necessários para a manter.

O terceiro indicio que Darwin colheu está baseado na observação de que, apesar da tendência para o crescimento imoderado de qualquer espécie, a realidade é que as coisas não se processam assim, e que os níveis se mantêm aproximadamente iguais. Isto levou-o a pensar que a causa é devida ao extermínio de uma parte da população, provocada por uma luta para sobreviver. As espécies animais tratam de defender-se de outras espécies; mas a luta maior pela vida a que chama struggle for life realiza-se entre os indivíduos da mesma espécie.

Nessa batalha, sobreviverão apenas os melhor dotados, ou seja, os que possuam alguma característica favorável que Ihes permita estar melhor adaptados ao meio ambiente. Este facto fundamenta uma selecção natural, que vai eliminando uma parte dos seres vivos, mantendo-se então aqueles que possuem alguma característica valiosa que transmitem hereditariamente, aos seus descendentes.

Uma quarta dedução é que as variações morfológicas podem ser muito pequenas e conceder uma vantagem mínima. Mas essas variações são muito frequentes e por somatório chegam a produzir diferenciações importantes.

Nos parágrafos anteriores estão contidas as base da teoria inicialmente exposta por Darwin no seu livro A origem das Espécies. Mais tarde, elaborou uma doutrina complementar acerca da selecção exercida em função dos caracteres sexuais, que é exposta em Descents of the Man (6) e em Selection in relation to Sex (7). Neste tipo de acção selectiva, a evolução concede a alguns indivíduos certas caracterizas que Ihes permitem conseguir, mais facilmente, o acasalamento reprodutivo, e assim terão maior probabilidade de que a descendência dos possuidores dessas vantagens seja mais numerosa do que as daqueles que são carentes das mesmas (8).

A dificuldade com que tropeçou Darwin; desde o primeiro momento, consistiu em encontrar a razão pela qual se produziam variações, sobre as quais actuava a selecção natural. Os seus discípulos encontraram, mais tarde, urna fonte de modificações, que são as alterações acidentais conhecidas pelo nome de mutações.

A mutação é uma variação corporal ou funcional de um caracter hereditário que surge de improviso. O fenómeno foi detectado e estudado por De Vries, o botânico que descobriu Mendel. A transmissão de caracteres por hereditariedade realiza-se de um modo muito rígido e o novo indivíduo é caracterizado pelos contributos contidos nas células procedentes do pai e da mãe. Deste modo, é assegurada una grande continuidade e permanência de caracteres, e se só existisse essa possibilidade, os seres vivos só poderiam apresentar caracteres morfológicos ou funcionais, que tivessem existido na sua ascendência. Um caracter, que surge repentinamente, terá que ter obrigatoriamente qualquer outra razão.

A genética molecular proporciona a resposta. A mutação consiste num acidente causado por alteração dos cromossomas, que se afirmam e voltam a juntar de modo diferente ou sofrem alguma destruição por causas, que ainda não são perfeitamente conhecidas. O caso é que se verificam centenas de mudanças que equivalem aos erros de cópia que poderia cometer uma dactilógrafa.

As mutações são bastante frequentes, ainda que nem todas tenham a mesma importância. Algumas são absolutamente irrelevantes e não provocam modificações observáveis. Outras podem ter consequências letais, fazendo com que o novo ser não seja viável ou então, provocar alterações mórbidas ou monstruosas. Por último, uma parte relativamente pequena, é capaz de dar origem a uma variação hereditária estável.

E é sobre este caudal de mutações não nocivas que vai operar a selecção.

O neo-darwinismo considera que o número de mutações é suficiente para uma acção selectiva que proporcione novas formas mais adaptadas às condições ambientais e mais favorecidas na contenda que se dá para assegurar a sobrevivência.

Há que acrescentar que as mínimas variações mutacionais constituem o que se constituem o que se chama micro-evolução, a qual actua de forma constante e com grande eficácia ,como prova e permanência da vida na Terra, apesar das condições hostis que teve que suportar em épocas geológicas muito diversas.

O neodarwinismo assumiu, nos tempos actuais, uma forma de grande abstracção por parte dos seus seguidores. A Genética que pareceu, a princípio, desmentir a teoria, foi interpretada precisamente de uma forma totalmente favorável. A selecção natural expressa-se dizendo que aqueles indivíduos que possuem alguma variação favorável em relação à população donde procedem e que os torna melhor adaptados ao meio ambiente, são recompensados pela selecção, consistindo a benesse outorgada em conceder-lhes uma descendência mais abundante. Isto significa que os mais adaptados se reproduzem mais do que os menos adaptados. Há, portanto, uma deslocação a favor dos seres dotados de características que permitem a adaptabilidade, a qual vai produzindo uma translação da espécie em directo a formas que se vão diferenciando progressivamente das ancestrais.

Esta forma com que os modernos evolucionistas se expressam é um pouco difusa. Não obstante, continuam a ser utilizados mesmos argumentos que se empregavam nos primeiros tempos do transformismo para apoiar a teoria. Tais argumentos são os que a seguir se examinam.


A prova da Paleontologia

A prova que se considera de maior força para demonstrar a existência da evolução, costuma situar-se no estudo dos fósseis. Fóssil é uma palavra procedente do latim e que significa cavado ou desenterrado. Os fósseis são restos de animais ou plantas antigas, que conseguiram chegar aos nossos dias, por terem permanecido em certas condições favoráveis de conservação.

A quase totalidade dos fósseis corresponde a ossos, conchas, carapaças, etc., ou seja, às partes duras dos seres vivos que têm maior probabilidade de subsistir que as partes moles, as quais, naturalmente, são passíveis de putrefacção. A conservação dos fósseis é favorecida pelo facto de, aquando da morte do animal, o mesmo se encontrar em material mole, tal como o lodo, o asfalto ou qualquer outro, dotado de plasticidade.

O número de exemplares fósseis recuperados é anormalmente pequeno em comparação com as grandes quantidades de material animal que através dos séculos, milénios ou milhões de anos, se foram incorporando à Terra.

Não se pode nem sonhar que se chegue a extrair do arquivo contido nas entranhas da terra, mais do que uma parte insignificante de elementos que permitam a reconstrução da história da vida. Trata-se, portanto, de um catálogo sumamente incompleto e carente em absoluto de alguns grupos muito importantes de seres vivos, os quais não deixaram qualquer vestígio da sua existência. Sendo assim, a reconstrução que se pretende realizar com base na Paleontologia terá, forçosamente, que ser completada, em grande parte, de um modo totalmente imaginativo.

Pois bem, a Paleontologia constitui, segundo os evolucionistas, o mais poderoso apoio para demonstrar a variabilidade das formas viventes, durante a longa noite dos tempos. A interpretação que é feita dos achados, é de que os restos fósseis indicam que pertenceram a seres que são tanto mais simples, quanto mais afastados estão no tempo. Desse facto inferem os evolucionistas consequências evolutivas, tendo em conta que os seres antigos já não existem e que as formas actuais não aparecem representadas entre os fósseis. Acrescentam que a semelhança de formas serve para assinalar a existência de parentesco entre os seres dos tempos antigos e os dos actuais.


A idade dos fósseis

Um dos inconvenientes com que tropeçou a Paleontologia foi o de conhecer a antiguidade dos restos que retirava das jazidas. Podia obter uma certa ajuda da Geologia, a qual, por diversos meios, conseguiu fixar entre certos limites a idade das formações geológicas. Portanto, a atribuição de uma data aproximada consiste em considerar da mesma idade os fósseis e o estrato geológico em que se encontram.

Esta técnica só oferece uma certa aproximação. Para a Geologia, uma variação de uns quantos milhares ou dezenas de milhar de anos, tem pouca importância. Mas o mesmo não acontece com a Paleontologia. Alem disto, existem alterações na disposição dos estratos, que podem ser perturbados. Nem todos os fósseis são encontrados no mesmo lugar em que se encontravam inicialmente, pois podem ter sido arrastados por mo movimentos tectónicos, correntes de água, de lava, etc., até outras jazidas. Acontece, às vezes, que numa mesma jazida se encontram fósseis corres pertencentes a épocas muito distanciadas no tempo, aos quais é necessário atribuir as datas de origem...

São vários os métodos que actualmente existem. Um deles, o mais antigo, é aquele a que é dado o nome de fluorina. Trata-se de uma substância existente, em várias percentagens, nas águas. Durante a vida de um animal, a fluorina contida na água incorpora-se no seu organismo, de depositando-se, principalmente, nos dentes. Uma vez morto o animal, a acção das águas continuará a fornecer, aos resíduos, uma quantidade de fluorina que estará em relação com o tempo durante o qual tais restos continuam submetidos a esta acção. Trata-se, desde logo, de um método complicado, que apresenta grandes dificuldades de realização, mas que em certos casos pode facultar dados apreciáveis.

Outro grupo de métodos baseia-se na presença, nos fósseis, de certos isótopos radioactivos. O primeiro a ser utilizado foi o carbono-14. Este elemento radioactivo forma-se nas camadas superiores da atmosfera, em consequência dos impactos causados pelos raios cósmicos sobre os átomos de nitrogénio. O carbono radioactivo forma, do mesmo modo que o carbono normal, anidrido carbónico que é assimilado pelas plantas no seu processo de fotossíntese.

Os animais comem plantas que contêm carbono-14, incorporando-o no seu organismo, ou, então, comem animais herbívoros que contem isótopos. Durante a vida do animal, produz-se uma incorporação contínua de carbono-14, que é compensada pelas perdas, que fazem com que o nível de C-14 do animal se mantenha constante.

Ao morrer, o animal deixa de incorporar carbono-14. Este tem um tempo de desintegração conhecido e, portanto, se se conhecer o conteúdo do isótopo que os animais tiveram em vida, poder-se-á calcular a idade em função da quantidade que se desintegrou. Este método, para a avaliação de datas, tem um limite que se situa à volta dos 25.000 anos. De igual modo se procede com outros elementos que se desintegram espontaneamente, como é o caso do isótopo do potássio.

O interesse da avaliação das datas, o mais exactamente possível, é dado pelas confusões que podem produzir-se frequentemente com os fósseis. Estas surgem por circunstâncias acidentais. Mas, às vezes, apresentam-se casos em que se pretende criar o erro. Tal foi o que aconteceu, num caso muito conhecido, com uma mandíbula supostamente humana, que apareceu em Piltdown (Inglaterra). Este achado manteve os cientistas francamente desorientados, até que se pode determinar, sem quaisquer duvidas, que se tratava de uma falsificação.


A prova da Anatomia Comparada

Outro dos argumentos dos evolucionistas, em que apoiam o parentesco entre os seres vivos, é proporcionado pela comparação entre as formas anatómicas de seres diferentes. Este facto foi o que colocou Lamarck na pista do transformismo, ao observar que certas formas vivas, muito diferentes, apresentavam no entanto um certo número de semelhanças.

Um dos exemplos, que foi frequentemente indicado, é o do esqueleto da asa dos pássaros, dos membros anteriores dos tetrapodes e das barbatana anteriores dos mamíferos aquáticos. Sublinha-se que em todos os casos, estes membros são formados pelos mesmos elementos, ainda que se apresentem com uma configuração diferente e apesar de algumas delas fazerem falta em certos casos. Isto deve-se, segundo o que se afirma, ao facto de todos as seres, entre os quais aparecerem paralelismos, terem uma origem comum e das diferentes formas partirem de uma mesma estrutura básica. A diferenciação morfológica fez-se em consequência dum processo evolutivo de adaptação.


A Embriogénese

Este argumento baseia-se na observação das espécies superiores em que se encontram presentes os esboços de outras espécies inferiores, de animais que precederam os actuais no processo evolutivo. Tais são, por exemplo, as pregas equivalentes às guelras dos peixes, e que se apresentam nos embriões dos mamíferos. Outro dos exemplos mais salientes é a existência embrionária, na espécie humana, de um apêndice caudal que permanece sob forma rudimentar no indivíduo adulto.

A teoria havia sido formulada em termos anteriores a Darwin e, em seguida, ardorosamente defendida por Ernest Haeckel, que sustentava que durante o período embrionário se recapitulava a história evolutiva dos seres vivos. Quanto mais jovem o embrião, mais fácil se torna distinguir os de espécies zoológicas muito distanciadas, como acontece com os embriões do frango e do homem.


A prova da Serologia

Foi também notada a semelhança existente nos componentes bioquímicos das diversas espécies animais, significando tal facto a Comunidade de origem de todas elas. É por essa razão que espécies muito diferentes reagem do mesmo modo perante certos reagentes químicos de determinados produtos farmacológicos. Por isso existem enfermidades idênticas e métodos curativos iguais.

Estes são os primeiros argumentos utilizados pelos evolucionistas para demonstrar a identidade de proveniência de todos os seres humanos. A argumentação transformista afirma que a evolução foi produzindo diferenciações, às vezes muito profundas, mas sem poder apagar certos traços que mostram uma herança comum dos mesmos ascendentes. Na realidade, as provas antes referidas e algumas outras menos relevantes que foram omitidas, servem de argumento ao transformismo, ou seja, a uma doutrina que defende, unicamente, que os seres vivos passam por transformações diferenciadas. Da admissão do transformismo derivam teorias que amplamente desenvolvidas constituem doutrinas sobre a evolução. Estas sustentam que as transformações originadas por múltiplas variações pequenas, são acções a que estão sujeitos irremediavelmente todos os seres vivos e que vão originando de modo continuo e incessante uma evolução tendente a manter a vida contra qualquer acção externa que se Ihe oponha. Em consequência desta evolução, os seres actuais derivam de formas ancestrais já extintas e todas elas procedem, por sua vez, de um número muito pequeno de formas primogénias, talvez de uma só forma original. Uma teoria científica não pode concluir com a simples afirmação de uns factos, mas, pelo contrário, tem de apresentar hipóteses razoáveis sobre o modo como se verificam os fenómenos primeiramente descritos e quais as causas que os motivam.

O método geral das ciências positivas é de caracter experimental e costuma-se considerar constituído pelas fases seguintes: estudo dos fenómenos e análise dos mesmos; elaboração de hipóteses; confirmação experimental. É claro que em alguns casos, as teorias não são confirmáveis, pois não se pode realizar a experimentação. É o que acontece com as teorias evolucionistas as quais não podem reproduzir, a nível do observável, o fenómeno da evolução.


As objecções às teorias

O facto das doutrinas da evolução não possuírem os meios para serem demonstradas de modo irrefutável, surge claramente ao verificar-se que, ainda agora, se tentam obter provas que apoiem essas teorias. Como acabámos de referir, a carência mais sensível reside na impossibilidade de confrontação experimental, que não está ao alcance dos evolucionistas por duas razões principais. Uma delas é a do processo evolutivo ser extremamente lento em relação à duração da vida humana, o que não permite que seja submetido à observação.

Certas experiências realizadas com algumas espécies animais, em que o ciclo de reprodução se realiza em períodos muito breves, não foram concludentes.

Outra das inumeráveis dificuldades existentes para a confirmação ou repúdio definitivo das teorias reside na impossibilidade de ir ao passado, onde as transformações evolutivas se produziram com maior intensidade. Não está ao alcance humano tornar a subir a corrente do tempo; não obstante, os evolucionistas modernos ofereceram uma possibilidade inquietaste que é a de conceber uma visão do futuro. Com efeito, se a acção evolutiva é eterna e permanente, os seres que agora existem, e entre eles o homem, acham-se inseridos num processo transformista irrenunciável. Haverá um homem do futuro tão diferente do actual, como o homem de hoje o é em relação aos hominídeos que o precederam?

Ao mesmo tempo, as modernas versões do evolucionismo afastam qualquer vaticínio, alegando que a evolução é um processo devido totalmente ao acaso, pelo que não tem sentido especular como será a espécie humana no futuro, nem sequer vislumbrar uma possível tendência para a melhora espiritual e somática ou para a degenerescência e, inclusivé, a extinção. É por esse facto que as doutrinas evolucionistas unem ao seu carácter tão cruamente materialista, de que se ufanam, uma desgarrada negação da incerteza.


A análise das provas

Foi referido, nas páginas anteriores, as provas que os evolucionistas apresentam como confirmação da veracidade das suas asserções. São as que foram utilizadas nos primeiro tempos e que hoje, no campo avançado da ciência, não merecem grande valor.

Não obstante, continuam a ser referidas em numerosos tratados de divulgação como provas irrefutáveis, pelo que será necessário explicá-las de novo.

A primeira delas era a Paleontologia, que tinha o caracter mais dramático e de maior evidência. Acontece, na realidade, que o número de exemplares de fósseis destinados a mostrar um quadro vívido da história natural da criação é desconsoladamente escasso. O próprio Darwin defendia-se daqueles que Ihe dirigiam provas mais consistentes, dizendo:

Considero o testemunho geológico como uma história do mundo conservada imperfeitamente e escrita num dialecto mutável; desta história possuímos unicamente o último volume, relativo só a dois ou três países. Deste volume só se conserva um breve capítulo aqui e ali e de cada página só algumas linhas.

Por outro lado, os biólogos não darwinista consideram de extrema importância o estudo paleontólogo, o qual, na sua opinião, foi realizado muito superficialmente, partindo da aceitação da hipótese evolucionista e explicando os factos observados como confirmação da hipótese, o que, sob o ponto de vista da Iógica científica, é repudiado.

O caso é que nem sequer o quadro que a paleontologia apresenta no seu conjunto parece indicar que se tenha produzido um avanço, mas sim uma substituição. E os resíduos fósseis que existem, pelo menos uma grande parte deles, não tem o menor aspecto de haverem sido os progenitores dos seres que ocupam o seu lugar como habitantes dos mesmos locais. Possivelmente, esta dificuldade em encontrar nos fósseis remotos um parentesco, razoavelmente justificável, com formas modernas, foi o que fez com que os evolucionistas dos nossos dias não considerem os fósseis como uma prova concludente.

Por outro lado, como que de um modo pictórico, Darwin refere no parágrafo anteriormente transcrito, que o registo paleontológico é extremamente incompleto e não porque esteja por completar, mas porque nunca chegará a ser completo. Grandes grupos animais, como o dos vermes e as formas zoológicas mais primitivas, foram destruídos pela acção dos agentes naturais, sem deixar o mínimo vestígio. Por esse facto, a reconstrução sem testemunhos paleontológicos, tem de realizar-se por via imaginativa, o que dá um caracter absolutamente especulativo às deduções que dela se possam extrair.

A anatomia comparada é um tipo de prova mais aparente que real. As semelhanças que se observam em certos órgãos, como no caso referido das barbatanas, asas e membros anteriores dos tetrápodes, pode ser explicada, se se quiser por comunidade de origem, ainda que sem grande fundamento. O facto de alguns órgãos apresentarem certas semelhanças, pode levar a outras explicações, como seja a da funcionalidade, que exige mecanismos similares para desempenhar várias funções. Que exista semelhança não significa outra coisa, senão que com os materiais disponíveis (ossos, músculos) não se podem construir mais do que um repertório muito reduzido de modelos, ou seja: as realizações estão limitadas pelas possibilidades construtivas.

O argumento baseado na embriologia é, provavelmente, o mais fraco de todos, e esta fragilidade já fora notada em tempos de Darwin, que não se atrevia a empregá-lo na defesa da sua teoria. Em tempos recentes, os princípios neo-darwinistas recusaram-no abertamente, negando-se a admitir que a sequência de formas que se originam durante o desenvolvimento do embrião, represente caracteres ancestrais.

Também, actualmente, é dado pouco relevo à prova da Serologia. Na realidade, trata-se de uma derivação pretensiosa que procura dar um carácter mais científico e, portanto, mais impressionante, a um velho argumento. Afirma-se que a análise química das substâncias que formam o organismo do homem e dos animais, demonstra que tanto uns como outros são compostos pelos mesmos elementos e que mantêm as mesmas leis físico-químicas. O biológico Pierre P. Grassé refere, com indignação: Dizer que os seres vivos são compostos pelos mesmos elementos que os corpos inertes... não é, fundamentalmente, mais do que uma banalidade, sem grande significado (11). É evidente que se os seres vivos têm que utilizar os mesmos elementos que se encontram no mundo inorgânico, não terão mais remédio do que produzir compostos análogos em todos eles.

Deste modo, as provas da evolução, aparecem, hoje em dia, providas de um valor demonstrativo muito escasso e Giuseppe Sermonti diz que estas provas, se encontram mais nos livros de divulgação do que nos textos científicos especializados. Pode dizer-se que essas provas são sugestivas, mas, no fim de contas, algo menos exaustivas.

Deixaram, pois, de ter actualidade no terreno científico, ainda que se mantenham noutros que, o menos que se pode dizer deles é que se encontram "extramuros" da ciência.


Em que consiste a Evolução?

Ainda que se tenha feito, nas paginas anteriores, e repetidamente, tentativas de definição do evolucionismo, será necessário exprimi-la com as mesmas palavras dos cientistas que o defendem. Uma definição que poderia dar-se como versão geralmente aceite, é a que formula, F. Crick, Prémio Nobel ida Medicina, que diz como segue" (11):

O essencial consiste em ter a certeza de que, em circunstâncias favoráveis, um organismo é capaz de multiplicar-se em grande número. Isto acontece habitualmente, com um crescimento em progressão geométrica. Um organismo dá origem a outros semelhantes, idênticos a si mesmo, e cada um dos quais, por sua vez, pode produzir descendentes idênticos. Os inevitáveis «erros de copia» farão com que alguns destes descendentes difiram (quase sempre, ligeiramente) do progenitor originário, e, entre eles, alguns haverá capazes de produzir cópias exactas de si próprios. Ao crescer a população, chegará um momento em que o ambiente já a não poderá sustentar. Produzir-se-á, então, a eliminação de alguns organismos, de modo que só os sobreviventes poderão produzir descendentes. Deste modo, será seleccionado, automaticamente, o mais apto» entendendo-se, por mais apto, o que é capaz de produzir descendentes. Na verdade tudo isto é um formoso mecanismo. A sua descoberta é um dos grandes triunfos da nossa civilização. Prescindindo do entusiasmo de Crick, o certo é que existe, nas palavras anteriores, uma zona de confusão que diz respeito à sobrevivência dos mais aptos. Giuseppe Sermonti refere que, de acordo com tais palavras, o mais apto produz mais descendentes, precisamente porque é mais apto, e é só por isso que produz mais descendentes. Este modo expositivo atribui as formulações actuais do evolucionismo um aspecto fantasioso, pelo qual não se pode obter uma explicação inteligível que permita ir em busca do verdadeiro mecanismo que activa a selecção, mas há, neste tipo de explicações, um conteúdo que não e expresso claramente, mas que se evidencia nos textos mais avançados (10).

Outro ponto é a teoria não admitir que a evolução tenha qualquer carácter de perfeição. Isto significa que não se pode assimilar a evolução a progresso, nas qualidades possuídas pelos organismos, que não têm que, forçosamente, ostentar outra característica senão a de reproduzir-se mais. O evolucionismo é uma teoria que desde o princípio vinha unida ao materialismo, e a admissão de alguma finalidade na evolução teria que ser absolutamente repudiada como componente de caracter extra-científico. O aparecimento de variedades e a selecção entre elas deve-se, exclusiva mente, ao acaso.

A selecção natural tem que apresentar, necessariamente, um carácter aleatório, já que está baseada, segundo defendem os neo-darwinistas, na separação entre o catálogo de variações que as mutações apresentam: as quais, actualmente, são consideradas como que sucedendo-se de modo absolutamente indeterminado, ou seja, totalmente ao acaso. Ora bem: esta única fonte de formas variantes apresenta um inconveniente grave.

A hereditariedade apresenta um carácter nitidamente conservador transmitindo unicamente aquelas formas que eram já dos progenitores. A mutação é acidental, e na maioria dos casos carece de valor para a evolução. Mas, ainda que entre as mutações apareçam algumas aproveitáveis, a própria acção selectiva encarregar-se-á de eliminá-las, e este facto dá-se pela própria definição de selecção, já que esta se encarrega de eliminar aquelas formas que difiram das existentes, já apresentadas. Para que as novas mutações tenham êxito seria necessário que aparecessem antes que se modificassem as condições ambientais. Tratar-se-ia, então, de uma pré adaptação, que teria necessidade de resistir à pressão selectiva.

A este respeito, o biólogo Pierre P. Grassé, fez a seguinte declaração: A explicação neo-darwinista da transformação das espécies por mutação lenta e gradual, continua a ser dificilmente aceitável. Uma propriedade que não tem tempo para afirmar-se, que, até ao momento, só existe em estado embrionário, terá escassa oportunidade de poder chegar a adulta. Frequentemente, representa tão só um obstáculo na luta pela vida e está, consequentemente, condenada a desaparecer (11).


Acabou a actuação da Evolução?

É frequente encontrar na literatura neo-darwinista uma expressão que, ao referir-se à evolução, acrescenta que está acontecendo perante os nossos olhos. Este facto parece considerar, como evidente, que a acção evolutiva continue a actuar perceptivelmente e que se encontra, portanto, presente como um fenómeno que Imprescindivelmente acompanha a vida.

O certo é que uma tal expressão nunca é ilustrada com exemplos e, quando tal acontece, os casos que são apresentados são triviais. Entre eles há um que vamos expor, porque é corrente vê-lo citado nos livros sobre evolução.

Há na Inglaterra uma traça chamada Biston Betularia, que há uns cem anos se apresentava em duas variedades: a maior parte dos exemplares tinham uma cor castanha e só uns poucos eram negros. Ao povoar-se a Inglaterra com fábricas fumegantes, as árvores começaram a enegrecer a casca em consequência do fumo. Pôde, então, observar-se que as mariposas de cor clara diminuíram rapidamente até que a população ficou reduzida, quase, exclusivamente, a exemplares de cor negra.

A explicação dada, e unanimemente aceite, foi que antes da industrialização, as traças escuras eram mais visíveis nos troncos de arvore e, por isso, mais facilmente devoradas pelos pássaros. Ao escurecerem as arvores, a vantagem da ocultação foi a favor das mariposas escuras, que são as que, actualmente, prevalecem.

Este um caso que se cita sempre como um argumento acerca da presença actual do mecanismo selectivo (o tal que está a acontecer perante os nossos olhos). O já citado G. Sermonti, faz o seguinte comentário: O que tem a ver um fenómeno deste tipo... com a evolução, continua a ser um mistério para mim, a não ser que se aceite como evolução, qualquer variação por muito superficial que seja, como a sua causa.

Ora bem, na opinião dos evolucionistas dos nossos dias, a evolução não necessita, forçosamente, de ser um progresso, porque tal facto significaria ter que admitir uma cadeia de afirmações que chocam com qualquer concepção de tipo materialista. A evolução progressiva tem implícita uma finalidade, ou seja, um propósito, que significa um projecto ou plano preestabelecido, Daqui teria que inferir-se que um plano ou projecto conduz necessariamente à ideia de alguém que o estabeleceu e com isso, só revigorariam as crenças religiosas.

Por isso é repudiada, energicamente, qualquer possibilidade finalista e reduzida a acção da evolução e um fenómeno totalmente cego. regido somente pelo acaso.

Mas a pergunta inicial é a de se saber se a evolução continua a actuar sobre os seres vivos.

Neste aspecto, existe uma forte corrente de opinião de que a evolução cessou total, ou quase totalmente de actuar. Durante os últimos períodos geológicos - diz Gaston Bouthoul - cessou de repente a criação de novas espécies (12). E Cuenot refere que desde o aparecimento das há trezentos milhões de anos, parece ter-se esgotado a veia criadora da Natureza e, também não surgiram novas estruturas desde o aparecimento dos primatas e do homem (13).

Há um forte argumento contra a presença actual da evolução por não ter parecido, nos últimos tempos, qualquer espécie nova e, em contrapartida, verifica-se o desaparecimento de muitas delas, sem que nenhuma outra as substituam. As condições do meio ambiente variaram o suficiente para dar origem a novas formas, melhor adaptadas que as existentes, mas não houve nenhuma resposta a esta incitação.

Há uma forma animal muito primitiva e de grande simplicidade morfológica que é a das bactérias, as quais, segundo se admite, se conservam identicamente na vida. Porque será que escaparam à evolução?

Seja qual for a causa que as subtraia ao processo fatal, necessitará de ser explicada nos mesmos termos da sua acção modificadora. Caso contrário, ao negar-se a universalidade da evolução, começam a desmoronar-se as afirmações evolucionistas, em que não há lugar para excepções.

Como resumo do acima referido, a evolução terá de ser considerada como um fenómeno de facto e as contradições e dificuldades encontram-se quando se considera a evolução como uma hipótese, na qual não existe uma base bem estabelecida para apresentar a realidade do fenómeno selectivo sobre as formas mutantes.

Costuma acontecer que, ao pretender discutir o evolucionismo, se objecta que não há teoria melhor. Este é um argumento falaz. Já não basta, para justificar uma determinada explicação, que o estado dos conhecimentos não tenha permitido encontrar as verdadeiras causas do fenómeno da evolução.


O mito evolucionista

Fica por examinar um último aspecto que não pode ser iludido. Trata-se do confronto histórico dos evolucionistas com as crenças religiosas. Tudo começou de um modo muito espectacular, em 1860, devido à apresentação das teses darwinistas, numa reunião da British Association for the Advancement of Sciences. Durante a mesma, o bispo protestante de Oxford atacou com grande violência a doutrina de Darwin, o que motivou uma reacção não menos azeda de um dos ardorosos defensores de Darwin e das suas teorias, Thomas Henry Huxley.

A partir de então abriu-se um profundo fosso entre os darwinistas e os crentes. Pensava-se, então, que a narração bíblica do Génesis ficava desmentida, sendo um dos temas de maior confronto o correspondente à origem do homem. Nas fileiras darwinistas militaram uma série de cientistas que se distinguiram pelo seu ateísmo, entre os quais podemos citar, Haldane e Giard.

Não é esta a situação actual. A Igreja (pelo menos a Igreja Católica) não pretendeu entrar na discussão, apresentando soluções alternativas ao darwinismo ou a qualquer outra teoria. Considera que a Revelação contida na Bíblia se situa num plano diferente, a qual não pretende constituir uma descrição científica de um facto natural, mas sim uma visão transcendente e providencialista.

Por esse motivo, não há razoes para um confronto de coisas que não são confrontáveis e prova de tal fato é a de que não existe nenhuma condenação formal por parte da Igreja, de qualquer das doutrinas das ciências naturais. Pelo contrário, existem e existiram cientistas católicos afectos ao evolucionismo, sem que tal posição tenha representado algum inconveniente para a fidelidade à Igreja.

Mas nem sempre existe reciprocidade quanto a esta questão. Não são precisamente os cientistas modernos que se esforçam por manter viva a velha polémica, mas sim outros sectores que continuam a utilizar termos esquecidos da discussão. Esse é o caso de numerosas publicações em que se apresenta o "mito" da criação, como base para ser submetido ao ataque por parte das teorias evolucionistas.

Citemos, no que respeita a estas atitudes, umas palavras de Charles Darwin, que aparecem no seu livro A Origem das Espécies.

Pela guerra que tem lugar na natureza, pela forma e pela morte subsequentes, atingiu-se a meta mais alta que se podia conseguir: o aparecimento dos grandes animais superiores. Há uma certa grandiosidade no facto do Criador ter insuflado a vida, com todas as suas manifestações numas poucas formas, ou numa única, e que as formas mais belas e maravilhosas se tenham desenvolvido a partir de um princípio tão modesto.

Uma forma de apresentar a atitude de aceitação de alguns cientistas cristãos, quanto ao evolucionismo, é expressa do seguinte modo:

Os descobrimentos de fósseis humanos, pertencentes as últimas eras geológicas, ou seja, à Terciária e Diluviana, comprovam que o corpo humano participou na evolução do conjunto do mundo vivo, constituindo, sob a sua forma actual, a última prolongação de tal progresso evolutivo. E pouco antes da época de transição entre o período Terciário e o Diluviano, há cerca de um milhão de anos, portanto, os dados actuais da ciência permitem situar o momento decisivo em que o corpo humano diferenciando-se de um corpo animal muito semelhante ao seu, surgiu sob a sua forma actual. Foi naquele momento que, depois de uma longa evolução conjunta do mundo animal e vegetal, o ser de carne e espírito chamado homem nasceu do acto criador de Deus e pude terminar a sua jornada por um devir permanente (14).

O evolucionismo científico percorreu, nos últimos tempos, um caminho autónomo ao longo do qual foi adornando a sua doutrina com uma série de atributos diversos: a evolução é contínua, permanente, universal e eterna. É indiscutível e os seus cultores foram reduzindo a um ghetto científico todos aqueles que se atreviam a por em dúvida os dogmas.

O facto de não poder ser demonstrada a doutrina de um modo indiscutível, a crença e a adesão à mesma tem vindo a constituir um acto de fé. E toda a teoria foi convertida num mito de ciência, ou seja, em algo de maravilhoso que não pode ser demonstrado peia simples utilização da razão. Desse facto, refere P. P. Grassé:

Hoje, temos o dever de destruir o mito da evolução como fenómeno simples, compreendido e explicado, o qual continua a desenvolver-se sob os nossos olhos. E não e válido tratar de apresentar extrapolações ou interpretações de factos como se se tratasse de demonstrações palpáveis e verdades demonstradas.

Esta elucidação das crenças críticas acerca do evolucionismo, deve tender, acima de tudo, para o avanço da ciência, libertando-a de aderências espúreas. Das várias tentativas, que através dos tempos houve para utilizar a teoria com outros fins, um exemplo é o de Karl Marx, o qual, ao ter conhecimento das investigações de Darwin, Ihe enviou, imediatamente, um exemplar, com uma dedicatória autografada, de O Capital. Também há que referir que Charles Darwin não chegou sequer a cortar essas folhas.


Bibliografia

(1) Hombre, Tiempo e Fósiles. Ruth Moore.
(2) Histoire Naturelle des Animaux. J. B. P. de Monet, Chev. de Lamarck.
(3) Recherches sur L`organization des Corps Vivants. J. B. P. de Monet, Chev. de Lamarck.
(4) The Origin of the Species. Charles Darwin.
(5) La Vida de Mendel. Hugo Iltis.
(6) The Descent of the Man. Charles Darwin.
(7) Selection in Relation to Sex. Charles Darwin.
(8) Un Siglo Después de Darwin. S. A. Barnett y otros.
(9) Hombres y Moléculas. F. M. Crick.
(10) Pensamientos Sobre el Evolucionismo. Giuseppe Sermonti.
(11) La evolucion del Ser Vivo. Pierre P. Grassé.
(12) Variations et Mutations Sociales. Gaston Bouthoul.
(13) L`Evolution Biologique. Lucien Guénot.
(14) L`Home Eternel. Pawles y Bergier.

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