EVOLUCIONISMO

A EVOLUÇÃO DA EVOLUÇÃO
Texto de Philip Whitfield

Face à consideração e influência que a teoria da evolução hoje suscita, difícil se torna imaginar o seu angustiado nascimento 150 anos atrás, na Inglaterra vitoriana. O desenvolvimento da teoria da evolução é uma história que combina descobertas científicas extraordinárias, poderosas personalidades e os condicionalismos outrora impostos à ciência pela sociedade e pela religião.

Tanto antes como durante o tempo de Darwin, a visão cristã ortodoxa media a história da Terra em milhares de anos apenas. Exigia que se aceitasse literalmente a origem de todos os seres vivos tal como vem descrita na Bíblia, no livro do Génesis, ou seja, que tais seres eram o produto especial e definitivo dos poderes criativos da divindade, constituindo o Homem o apogeu desse processo criativo.

A mínima sugestão de que os seres vivos se modificavam ao longo do tempo não podia ser tolerada, dado que implicava que as formas criadas por Deus eram de algum modo imperfeitas, o que era blasfemo. A ideia de que a vida não sofria alterações implicava também que todas as formas de vida inicialmente criadas existiam ainda sobre a Terra. Pois por que iria Deus criar um animal ou uma planta para, mais tarde, permitir que se extinguisse?

Estes pontos de vista ortodoxos eram contestados muito antes da viagem de exploração de Darwin, a bordo do HMS Beagle, durante o decénio de 1830. Livres-pensadores de vários credos tinham questionado a posição tradicional. Uns por motivo de dúvidas filosóficas, outros sob a influência de novos tipos de achados que se acumularam durante o século XVIII e início do XIX, sobretudo os testemunhos relacionados com a Natureza e significado dos fósseis.

Em muitos pontos do Mundo, os fósseis eram tão numerosos que se tornava impossível, mesmo para observadores não especializados, ignorá-los; guarneciam as faldas das arribas e jaziam profusamente em encostas pedregosas e em praias. Conchas, dentes, amonites enroladas em espiral e ossos, todos eles feitos de pedra, foram encontrados durante esse período. As primeiras concepções quanto à sua origem eram vagas e variadas. Seriam aqueles objectos os resíduos de criaturas vivas ou algo de totalmente diferente? Alguns acreditavam que as pedras assim trabalhadas se deviam a uma força vital presente na Terra e que se esforçava por fazer imagens dos seres criados por Deus. Outros sugeriam que os ovos de animais verdadeiros se tinham alojado nas rochas, desenvolvendo-se como tumores de pedra.

Mas a ligação entre os fósseis e animais existentes foi-se tornando cada vez mais óbvia. Finalmente, tornou-se impossível duvidar de que os fósseis fossem os vestígios petrificados de seres que tinham vivido em tempos. A fim de explicar tal facto em termos religiosos, invocou-se o Dilúvio descrito na Bíblia. Afirmou-se que os fósseis eram os restos mortais de animais afogados no dilúvio e para sempre encerrados nos sedimentos produzidos durante a inundação. A teoria explicava também por que motivo se encontravam fósseis de seres marinhos em rochedos no cume das montanhas, pois uma inundação gigantesca podia ter arrastado conchas e outros vestígios até essas alturas.

Contudo, novos e problemáticos factos começaram a surgir. Estudos geológicos revelaram que as diferentes camadas de rocha sedimentar não se haviam formado todas ao mesmo tempo. Mais, o tempo necessário à sua formação parecia ser bem mais longo que uns poucos milhares de anos. Se todos os fósseis e estratos sedimentares não eram o resultado de um único dilúvio bíblico, teriam sido originados por uma série de inundações, das quais a de Noé seria a última. Mas essas anteriores catástrofes não vinham registadas no Antigo Testamento. Mais preocupante ainda para os tradicionalistas foi a verificação de que alguns fósseis eram de criaturas que já não existiam na Terra. Pelo contrário, dir-se-ia representarem formas de vida há muito extintas.

Durante algum tempo, esta dificuldade teve resposta na sugestão de que as criaturas presentes nos fósseis existiriam ainda em regiões inexploradas do Globo. Contudo, à medida que se foram acumulando cada vez mais vestígios de tipos extintos e que o ritmo de exploração do Mundo se foi acelerando, essa posição defensiva ruiu. Se Deus tinha criado todos os seres num único instante, algures no passado, posteriormente deixara que alguns desaparecessem.

As modificações nos seres vivos eram, pois, motivo de aceso debate e controvérsia no final do século XVIII e início do XIX. Encontramos uma expressão concreta desse debate no trabalho produzido por um membro da camada mais pobre da nobreza francesa, Jean-Baptiste Antoine de Monet (1744-1829), que se auto-intitulou Cavaleiro de Lamarck e veio depois a ser conhecido simplesmente como Lamarck. As suas concepções relativamente à organização dos seres vivos e respectiva capacidade de se modificarem são hoje rejeitadas, mas injustamente. Na realidade, Lamarck criou em 1809 algo que tem sido descrito como a primeira teoria explícita da evolução.

Lamarck era um talentoso naturalista, dedicado ao trabalho de campo, e um botânico consumado. Inventou o sistema dicotómico que permitia identificar um animal ou uma planta desconhecidos a partir das suas características observáveis, sistema que conheceu enorme êxito. O sistema consiste numa série de perguntas, cada uma ligada por uma chaveta a duas ou mais respostas possíveis, cada uma destas por sua vez remetendo o investigador para uma nova pergunta do mesmo tipo. No final de cada encadeado de perguntas e respostas surge a identificação de um ser vivo.

Um exemplo hipotético do sistema de Lamarck levaria à identificação de um quivi através das respostas a duas únicas perguntas. Primeira, se a ave em causa pode ou não voar. E, no caso negativo, se tem um bico maior que o dobro do comprimento do resto da cabeça. A única ave que não voa e ostenta um bico desse tamanho é o quivi. O simples sistema de Lamarck suportou a prova do tempo e continua a ser o método padrão para codificar identificações.

Lamarck tomou-se botânico do rei no jardim Botânico em Paris, mas permaneceu sempre na sua atitude de desafio à ortodoxia ao analisar os seres vivos. Os seus estudos taxonómicos demonstraram-lhe que grupos de espécies se relacionavam entre si de maneiras significativas e que as espécies se modificavam realmente ao longo do tempo. As suas ideias sobre estes temas e outros com eles relacionados foram pela primeira vez passados ao papel no seu livro Philosophie zoologique, publicado em 1809.

Lamarck pensava que os diferentes tipos de animais, com os seus variáveis níveis de complexidade, faziam parte de uma sequência de transformações a longo prazo. Presumia que as criaturas mais simples teriam surgido por «geração espontânea» de coisas inanimadas, uma hipótese que, na época, era incontroversa. Ascendiam então, através de escalões de urna complexidade crescente, em direcção à evidente perfeição dos humanos. Há cerca de 200 anos e perante as rígidas certezas religiosas, tratava-se na verdade de um pensamento revolucionário.

Quanto ao restante da «filosofia zoológica» de Lamarck, era em grande parte debilitada pela falta de provas quanto aos mecanismos destas transformações. Lamarck sugeria que os animais subiam na escala porque desejavam ser melhores e esse desejo de aperfeiçoamento seria o incentivo da modificação. Por exemplo, os antepassados da girafa tinham pescoço curto mas, ao esticarem-nos a fim de atingir folhas mais tenras, situadas mais alto, o pescoço alongou-se. De acordo com Lamarck, os descendentes dessas girafas nasciam com pescoços mais longos em consequência do desejo dos seus progenitores.

Esta ligação do desejo de mudança com a mudança em si, concebida por Lamarck, era em breve posta a ridículo e, desde então, o seu descrédito foi constante. Basta recorrer ao senso comum para ver que as modificações adquiridas durante a vida não se transmitem de pais para filhos. Há milhares de anos que as crianças israelitas são circuncidadas, mas nem por isso deixam de nascer com prepúcio.

Embora com falhas, a teoria de Lamarck acerca das girafas não deixava de reconhecer factos importantes, nomeadamente que os antepassados das girafas tinham pescoços curtos, os quais se alongaram subsequentemente. As suas asserções retiraram a Deus o papel de criador de todas as formas de vida num momento determinado e mostraram que não só é certo que os animais se modificam ao longo do tempo, como ainda que essas modificações os tornam mais bem adaptados ao ambiente que os rodeia. Lamarck reconheceu, pois, estes processos, só que não soube identificar os seus mecanismos.

Foi missão de duas outras grandes figuras, com diferentes reputações, explicar esse mecanismo da modificação. O nome de Charles Darwin está firmemente ligado à ideia de evolução, ao passo que Alfred Russel Wallace é muitas vezes encarado como um simples seguidor. Mas o facto é que estes dois homens, independentemente um do outro, deram ao mundo a mesma explicação para a força motivadora da evolução, ou seja, a teoria da selecção natural.

Charles Darwin, nascido a 12 de Fevereiro de 1809, era filho de um físico de sucesso. O seu avô, Erasmus Darwin, também ele fisico, era um seguidor de Lamarck e escreveu um longo poema intitulado Zoonomia, que continha esboços de ideias evolucionárias. A vida de Charles decorreu no seio das classes inglesas abastadas, média e alta. Em 1839, casou com um prima em primeiro grau, membro da família Wedgwood, que ocupava lugar proeminente na elite industrial do país.

Destinado originalmente à vida clerical, Darwin estudou na Universidade de Edimburgo e depois em Cambridge. Desde os mais jovens anos que se revelou um naturalista fanático com particular fascínio pelos coleópteros. A sua inclinação para recolher e identificar seres vivos conduziu à decisão crucial que iria modificar não só a sua vida, mas também o curso das ciências que com a vida se relacionavam. Tal decisão transformou um cavalheiro inglês aparentemente comum num extraordinário cientista, alguém que obviamente, mais que qualquer outro, transformou o modo como nos encaramos a nós próprios,

Apesar das fortes pressões familiares no sentido de continuar no caminho que o teria transformado num pároco rural, Darwin acedeu a acompanhar o capitão Fitzroy, comandante do brigue de dez peças HMS Beagle, numa viagem de observação de cinco anos ao redor do Mundo. Quem o apadrinhou na empresa foi um dos seus professores de Cambridge, o botânico J. S. Henslow. Este explicou que o capitão Fitzroy estava interessado num companheiro para a sua viagem que, de idêntica craveira social, fosse igualmente um naturalista. Ora Darwin provinha da camada certa e era um ávido coleccionador.

O Beagle zarpou de Inglaterra em 1831, dois dias depois do Natal. A sua rota levou-o ao longo das costas oriental e ocidental da Américá do Sul e até às Galápagos e outras ilhas do Pacífico, antes do seu regresso, em 1836. As descobertas e experiências desta viagem, afinal a única verdadeiramente séria que Darwin fez, tiveram profundos efeitos no seu pensamento. Convenceram-no de que os seres vivos apresentavam padrões de uma ancestralidade comum.

Nos diários e cadernos de apontamentos da própria viagem e no registo dos seus estudos a ela subsequentes, Darwin compreendia com crescente clareza que os aspectos comuns entre criaturas semelhantes tinham mais a ver com origens comuns que com o Divino Plano de um Criador. Viu, por exemplo, que a estrutura óssea dos membros da maioria dos mamíferos - um osso longo, depois dois ossos longos e uma mão ou um pé com cinco dedos evidenciava que todos os mamíferos derivavam de um antepassado único com essas características particulares.

Darwin encarou os fósseis de lóris gigantes que encontrou na América do Sul como prova de extinções, posto que os seus únicos parentes vivos eram espécies muito mais pequenas. Notou que os animais podiam apresentar órgãos “vestigiais” sem função aparente. Defendeu que as múltiplas vértebras na cauda dos pássaros, cujo papel como base de implantação das penas seria igualmente bem desempenhado por uma única vértebra curta, só seriam explicadas de uma maneira sensata se as aves proviessem de antepassados reptilianos, dotados de longas caudas com múltiplas vértebras. Pois porque iria um criador colocar vários ossos na cauda de um pássaro quando apenas um teria funcionado igualmente bem? Depois, no arquipélago das ilhas Galápagos, depararam-se a Darwin muitas espécies de tentilhões, estreitamente relacionadas na aparência. Acreditou que seriam todos descendentes de um único tipo ancestral que conseguira colonizar as ilhas a partir do território continental sul-americano, a oriente.

Durante a viagem, Darwin expediu para Inglaterra centenas de espécimes para mais tarde serem analisados por ele e por outros naturalistas. Convenceu-se de que a modificação evolutiva em todos os seres vivos era um facto, compreensão que o afastou decididamente das condicionantes religiosas próprias do pároco que estivera para ser. Darwin tornou-se um biólogo racionalista.

Darwin defrontou igualmente o problema de determinar o mecanismo para a modificação nas espécies. Neste aspecto, foi influenciado pelas teorias demográficas do reverendo Thomas Malthus (1766-1834). No seu Ensaio sobre o Princípio da População, Malthus defendia que, visto as populações humanas poderem aumentar mais rapidamente que os fornecimentos alimentares, a inanição e a luta por comida virá, em última instância, a gerar uma força controladora que regule o crescimento da população. Na sua autobiografia, Darwin anotou: «Em Outubro de 1838... aconteceu-me ler, para me entreter, o trabalho de Malthus sobre população... » Foi uma diversão com resultados sérios. Darwin colheu em Malthus o germe de uma ideia e construiu sobre ele uma teoria geral sobre a dinâmica da vida.

A traços simples, a teoria era a seguinte: À medida que os membros de uma espécie se reproduzem, dá-se um inevitável aumento no seu número e, consequentemente, na competição por recursos cruciais, como os alimentos. Nem todos os indivíduos se encontram igualmente bem equipados para essa luta, pois há sempre variantes dentro de qualquer espécie. Os que se encontram ligeiramente mais bem adaptados para obter os recursos de que necessitam num determinado ambiente, tendem a sobreviver e a reproduzir-se à custa dos menos bem equipados.

Se as características úteis dos sobreviventes se transmitem à sua descendência, a espécie modificar-se-á gradualmente no sentido de uma melhor adaptação ao seu ambiente. É este o conceito da selecção natural: pressões ambientais, tais como a competição pelos recursos, fazem com que alguns indivíduos sejam “seleccionados” de entre a variabilidade no seio de uma espécie. Neste sentido, selecção significa simplesmente que as características herdadas de certos indivíduos os tornam mais aptos a sobreviver e a reproduzir-se, num determinado conjunto de condições ambientais, que outros indivíduos.

O modelo de Darwin para a selecção natural foi a selecção artificial utilizada pelos criadores de plantas e animais. A selecção que estes fazem de características específicas, de geração em geração, pode produzir um buldogue ou um galgo a partir de um antepassado semelhante ao lobo, ou trigo de gordas espigas derivado de uma erva bravia e escanzelada. Ao estudar animais de criação altamente apurada, tais como pombos, Darwin estabeleceu uma analogia directa entre essa selecção artificial e a que se processava no ambiente natural através da competição.

O esquema de todas estas ideias estava já na mente de Darwin em 1838, mas só veio a dá-las a público 20 anos mais tarde. Uma das razões para esta demora terá, provavelmente, sido o desejo de apoiar solidamente cada hipótese em factos, a fim de evitar o destino das teorias do seu predecessor, Lamarck. Outro motivo para o adiamento foram, certamente, as ondas de choque que ele sabia que uma tal teoria iria produzir na sociedade do seu tempo e na religião. Nas suas próprias anotações, Darwin confrontara-se com a ramificação última de uma teoria de modificação evolutiva e selecção natural e sabia que ela evocava um cenário para a vida sem a presença de Deus. Colocava também, e decisivamente, a espécie humana dentro desse cenário biológico, na situação de escalão final temporário de uma linha de evolução dos macacos.

O bloqueio, induzido pela sua ânsia de rigor científico e, talvez, ainda maior ansiedade quanto às consequências públicas da divulgação, cedeu finalmente, face ao receio de ver o seu trabalho “ultrapassado” por Alfred Wallace.

Nascido em 1823, Wallace era 14 anos mais novo que Darwin. Naturalista de enorme sucesso, era um coleccionador profissional, não um amador endinheirado como Darwin. Fez viagens de recolha extremamente produtivas à Amazónia e índias Orientais, vendendo parte das suas colecções para se sustentar. Encontrava-se nas índias Orientais quando teve um luminoso rasgo de inspiração acerca da natureza da vida. Em termos que pouco diferiam das anotações de Darwin, ao tempo ainda por publicar, Wallace concebeu a ideia da selecção natural. Tal como ele se exprimiu, «as espécies tenderão a afastar-se indefinidamente do seu tipo original».

Wallace era um admirador de Darwin e fora altamente inspirado pelo relato que este publicara da viagem do Beagle. Assim sendo, enviou ao seu herói pormenores das suas próprias teorias sobre o modo como as espécies se modificariam ao longo do tempo. Darwin ficou estupefacto. O trabalho de Wallace parecia bem capaz de se antecipar ao que ele próprio conseguira em anos e anos de recolha de dados e respectiva análise. Foi então estabelecido um extraordinário compromisso, negociado pelos cientistas, colegas de Darwin, entre os quais Joseph Hooker e Charles Lyell. Ficou assim determinado que ensaios de Darwin e de Wallace sobre o tema em questão seriam apresentados na mesma reunião da Sociedade Lineana, em Londres.

No ano seguinte, 1859, Darwin publicava A Origem das Espécies por Meio de Selecção Natural, o seu pormenorizado volume sobre as provas da modificação evolucionária e da selecção natural. O acolhimento que a obra obteve levou a que Darwin fosse considerado como progenitor da teoria da evolução e Wallace uma mera testemunha do parto. Mas a realidade era outra.

Poucos anos após a publicação do livro de Darwin, a ideia básica da modificação evolutiva dos seres vivos fora firmemente estabelecida, a despeito dos contínuos ataques por parte daqueles que se apegavam a uma visão pré-darwiniana do Mundo, menos assustadora. A aceitação da ideia de uma selecção natural accionada pela herança de características favoráveis foi bem mais tardia. Só em meados do século XX é que a base genética da hereditariedade, baseada nas experiências de criação de plantas de Gregor Mendel (1822-1884), desabrochou numa ciência susceptível de explicar a variação e a sua herança no contexto de uma população de indivíduos em evolução.

Por volta dos anos 50 deste século, um consenso neodarwiniano estabeleceu firme ligação entre a genética e a modificação evolutiva. Os progressos subsequentes em biologia molecular deram grande expansão ao consenso. A partir do momento em que a simples escala molecular de informação genética se torna evidente - nomeadamente que os genes numa única célula contêm milhões de instruções individuais - decorre daí a quase inevitabilidade das modificações herdáveis.

Os genes têm de ser copiados de cada vez que uma planta ou animal se reproduz, um processo que decorre em muitas fases, e é impossível que isto aconteça sempre sem erros. Esses erros no copiar dos genes constituem na realidade a matéria-prima da modificação evolutiva. De modo idêntico, é também possível encarar a forma como os organismos se adaptam aos respectivos meios ambientes através da evolução como inevitável.

As modificações genéticas, que podem encarar-se como erros fortuitos, só passam à geração seguinte se se encontrarem em organismos que conseguem reproduzir-se. Se os genes modificados contribuírem para alargar as possibilidades de reprodução ou o número de descendentes, aumentam as possibilidades de surgirem na geração seguinte. Todos os genes que diminuam a capacidade reprodutiva têm o efeito contrário. O resultado é uma simples ligação entre o destino de uma modificação genética num ser e o seu efeito sobre a reprodução. Essa ligação mantém as modificações benéficas, em termos gerais, relativamente a um mundo exterior que está em constante fluir.

Desta nossa vantajosa posição, perto do final do século XX, as ideias de evolução podem agora ser vistas como uma plataforma fundamental de compreensão. O conceito de evolução tudo penetra. Interrelaciona-se com toda e cada faceta das modernas ciências da vida, desde a biologia molecular até à antropologia, o que torna difícil isolar, para observação, uma entidade singular chamada “evolução”. A evolução não é já uma teoria isolada e distinta. É algo que faz parte de todos os nossos pensamentos que dizem respeito aos seres vivos deste planeta.

in Whitefield, F. 1993. História Natural da Evolução

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