EVOLUCIONISMO

VIDA E MUDANÇA
Texto de Philip Whitfield

A evolução é algo que sucede aos seres vivos. É a alteração da vida ao longo do tempo. Uma forma de mudança evolutiva é definida como adaptação, isto é, a lenta alteração, geração após geração, do misto de características que tipificam uma espécie. Os membros de uma certa espécie de caracóis, por exemplo, podem apresentar mais riscas nas conchas que os seus predecessores de algumas gerações atrás. É possível que os membros de uma espécie de rato tenham o pêlo mais longo que o dos seus antepassados imediatos.

As lentas mudanças herdadas deste tipo tornam-se úteis. As conchas de caracol com mais riscas melhoram a camuflagem, reduzindo assim os ataques predatórios dos tordos. À medida que o clima arrefece com o decorrer das décadas, o pêlo mais longo diminui a perda de calor do corpo de um rato e aumenta-lhe as possibilidades de sobrevivência.

Alterações como estas são conhecidas como «adaptações» porque parecem tornar os organismos em causa mais bem preparados e adaptados às condições particulares em que vivem. As mudanças de adaptação têm lugar no âmbito das populações de uma única espécie. Pelo menos potencialmente, todos os membros dessa espécie podem acasalar uns com os outros, apesar de pequenas diferenças entre indivíduos.

O registo do passado vivo, que nos é oferecido pelos fósseis, conta-nos toda uma história de novas formas de animais e plantas, que surgem, prosperam e, após algum tempo, se extinguem. Esse registo aponta para a existência de uma mudança evolutiva, mais radical, conduzindo à criação de novas espécies. Se a gama de adaptações herdadas em determinada população de uma espécie se torna tão extrema a ponto de impedir a procriação com outras populações dessa mesma espécie, a população modificada é efectivamente unia nova espécie, um tipo totalmente novo de organismo.

A adaptação e a criação de novas espécies são factos da vida, mas o estudo da evolução tenta explicar porque é que acontecem desse modo. No final do século XVIII e princípio do XIX, havia a consciência cada vez mais generalizada de que os seres vivos se modificavam realmente. As ideias quanto ao que conduzia a essas modificações cristalizaram numa teoria formal, através das conclusões a que, em meados do século XIX, chegaram Charies Darwin e Alfred Russel Wallace, tendo ambos sugerido que o dinamismo da vida e as suas mudanças evolutivas eram o resultado de uma selecção natural.

A teoria da selecção natural poderá talvez explicar-se melhor como uma série de enunciados e de efeitos. Primeiro, cada geração de uma espécie dá origem a mais descendentes que o número dos que irão sobreviver e reproduzir-se na geração seguinte. Segundo, potencialmente os membros individuais de uma espécie, numa mesma geração, podem todos acasalar entre si, mas não são idênticos. Terceiro, determinadas características variáveis darão aos indivíduos que as possuem uma vantagem competitiva na luta pela sobrevivência e nas oportunidades de reprodução, o que por sua vez lhes permitirá dar origem à geração seguinte.

Pressupondo que estas vantajosas características são hereditárias, há mais probabilidades de virem a surgir em gerações subsequentes do que as menos vantajosas. Foram, pois, naturalmente seleccionadas. Daí resulta que a espécie se irá modificando ao longo do tempo no sentido de melhor adaptar os seus membros ao ambiente em que luta pela sobrevivência.

Esta sequência de causas e efeitos resulta num padrão de mudança reconhecível como adaptação. Poderá ser condensada em frases como “a sobrevivência dos mais aptos”, mas tais abreviações ignoram muito do que é importante, por exemplo, a intrínseca e inevitável natureza da variação. Assim, estas generalizações obscurecem o facto de que o conjunto de variações em cada geração de cada ser vivo, planta ou animal, é testado face às condições em que esse organismo vive. E esquecem ainda a condição crucial de que, para que a selecção natural ocorra, as características vantajosas têm de ser transmissíveis e transmitidas, isto é, hereditárias.

Embora com 150 anos, a teoria da evolução de Darwin é ainda, provavelmente, o texto mais profundo que já se escreveu sobre a natureza da vida. Na essência, permanece o sustentáculo de todas as modernas ciências da vida. Os novos conhecimentos relativos à base molecular da genética e da vida vêm simplesmente permitir-nos redefinir as ideias de Darwin numa linguagem ainda mais precisa.

in Whitefield, F. 1993. História Natural da Evolução

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