EVOLUCIONISMO
AS AVES QUE AJUDAM DARWIN


Como divergem as espécies? Como a partir de uma única espécie se formam várias outras? Pode parecer inacreditável que a ciência ainda ande a lutar com estas perguntas, quando foi em 1859 que Charles Darwin publicou o célebre livro "A origem das espécies", onde explicava a sua teoria sobre a evolução da vida segundo os princípios da selecção natural.Mas a verdade é que verificar a evolução por meio de experiências científicas é difícil, pois quase tudo se processa mais lentamente do que a nossa breve existência humana é capaz de registar. Mas há acasos que permitem algo semelhante a ver a acção da evolução ao vivo. Foi o que fizeram Darren Irwin e os colegas da Universidade da Califórnia em San Diego, EUA, ao verificarem um fenómeno de especiação de aves na Ásia central e na Sibéria, que explicam no último número da revista "Nature".

"Sobre a origem das espécies através da selecção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida" era o nome completo do livro de Darwin, no qual o naturalista britânico abandonava a ideia de Deus como o pai de toda a criação. Naquele livro, Darwin afirmava que a selecção natural é a força motriz que faz com que sobrevivam apenas os indivíduos mais aptos e com características melhor adaptadas ao seu meio, transformando as espécies e criando a diversidade biológica.

Mas Darwin acreditava que este era um processo gradualista, em que a história de cada espécie se escrevia passando por inúmeras espécies intermédias. O facto de o registo fóssil não nos revelar todas essas espécies intermédias era um acaso a que nos deveríamos resignar, defendia Darwin com unhas e dentes: "O registo geológico é extremamente imperfeito e este facto explicará em larga medida porque não encontramos intermináveis variedades ligando entre si todas as formas de vida, extintas ou existentes. Aquele que rejeitar estas ideias sobre a natureza do registo geológico rejeitará certamente toda a minha teoria", escreveu Darwin, segundo uma citação escolhida pelo paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould usada no ensaio 17 do livro "O Polegar do Panda" (ed. Gradiva).

Esta colagem de Darwin a um processo gradualista da evolução suscitou polémica e continua aliás a suscitá-la. O próprio Gould advoga um modelo de evolução em que períodos de estabilidade podem ser alterados rapidamente - o chamado equilíbrio pontuado -, produzindo mudanças rápidas.


Um anel em torno do Tibete

A discussão continua, portanto. E o que a equipa de Darren Irwin fez foi precisamente seguir uma pista já antiga, que indiciava que, em torno do grande planalto tibetano, umas pequenas aves canoras que são comuns por toda a Ásia - chamadas em português felosa-verde ou, segundo a sua designação científica, "Phylloscopus trochilus" - podiam ser uma experiência de especiação ao vivo.

O ornitólogo Claude Ticehurst descreveu, em 1938, um fenómeno estranho: "Baseando-se nas variações observadas nas cores, nas formas e no tamanho do corpo de vários espécimes guardados em museus, concluiu que existiam duas formas distintas desta espécie na Sibéria central, que tinham diferentes padrões de cores e não se cruzavam", explicou Darren Irwin ao PÚBLICO.

Foi esta pista que Irwin decidiu aprofundar para a sua tese de doutoramento. Para isso, partiu numa exótica viagem, que o levou à Rússia, à Quirguízia, à Índia, ao Nepal, à China e à Suécia. "Nestes locais, fiz gravações do canto das aves, que dei a ouvir a aves de outras zonas, e recolhi amostras de sangue para depois fazer análises genéticas", explicou Irwin.

O que a equipa de Irwin concluiu foi que as populações desta ave se distribuíam em forma de anel em torno de um obstáculo geográfico, que levava ao seu isolamento: o planalto tibetano, uma zona desabitada, sem árvores. As populações da felosa-verde dispõem-se em torno do planalto, contornando-o. Ao longo do anel, as populações vão apresentando modificações graduais ao nível do comportamento e das características genéticas, mas as populações vizinhas podem ainda cruzar-se.

Este anel une-se na Sibéria Central, onde coexistem duas espécies que não se cruzam. "Isto cria um paradoxo: há dois tipos de aves que podem ser considerados como duas espécies diferentes e uma só ao mesmo tempo", diz Irwin. "Estes fenómenos são muito raros, mas são valiosos porque mostram todos os passos intermédios que ocorrem durante a divergência de uma espécie, até se transformar numa outra."

As felosas-verdes estão a transformar-se em duas espécies distintas na Sibéria porque as duas populações que lá vivem não se cruzam. Isto porque não reconhecem o canto uma da outra - portanto, não estabelecem contactos sexuais. "Como na maioria das aves canoras, os machos de felosas-verdes cantam para atrair potenciais companheiras e para defender o seu território", explica Irwin. Só que as aves que vivem nos Himalaias têm um canto simples, curto e repetitivo e, à medida que se sobe para norte, ao longo do Tibete ocidental, os cantos tornam-se mais longos e complexos. No lado Leste, avançando pela China, os seus cantos são também mais longos e complexos, mas têm uma estrutura diferente.

O resultado é que na Sibéria, quando o anel composto por estas populações se fecha, as canções de cada uma das populações são tão diferentes que não se reconhecem entre si - o que é um típico mecanismo de especiação.

"Para compreender a diversidade da vida na Terra, é preciso compreender dois processos", continua Irwin. O primeiro é a evolução no seio de uma única espécie - compreender a evolução humana ao longo dos milénios, por exemplo. "O segundo é a especiação, ou a divisão de uma espécie em duas. Isto é muito mais difícil de estudar, porque é um processo longo. Por isso, o estudo das populações das felosas-verdes é importante, porque podemos usar a variação geográfica como um modelo para perceber como é que uma espécie pode modificar-se e dividir-se em duas ao longo do tempo", remata o investigador.

E esta foi a primeira vez que este estudo se pode fazer de forma satisfatória, salienta a equipa de Irwin na "Nature". "Estes resultados mostram como pequenas mudanças evolutivas podem originar diferenças que causam o isolamento reprodutivo entre as espécies - tal como Darwin dizia", conclui Darren Irwin.

in Público, 20 de Janeiro de 2001

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