EVOLUCIONISMO

IRMÃOS SEPARADOS À NASCENÇA


O homem e o chimpanzé são geneticamente muito semelhantes. Com efeito, partilham 98,7 por cento dos genes. No entanto, a actividade cerebral de uns e outros é muito diferente, e as pequenas diferenças que existem situam-se, essencialmente, a este nível, conforme verificou uma equipa de cientistas, que publica o resultado da sua investigação no número de hoje da revista Science. As semelhanças, segundo o estudo, situam-se a outros níveis.

Uma equipa de cientistas comparou a actividade dos genes nas duas espécies, nomeadamente, nas células hepáticas e sanguíneas, verificando que a maioria das pequenas diferenças ao nível do cérebro, mais complexo no homem, estabelece a grande diferença entre aqueles primatas e os seres humanos. Com efeito, a equipa comparou a actividade dos genes no cérebro, fígado e sangue de chimpanzés e humanos, estabelecendo que os tecidos de ambos eram muito semelhantes, mas que o cérebro humano apresentava cinco vezes mais actividade genética que o do macaco.

Os dados recolhidos sugerem que muitas das alterações evolutivas que separaram os chimpanzés dos humanos ocorreram a nível cerebral, disse Ajit Varki, professor de medicina na Universidade da Califórnia, em San Diego, e co-autor do estudo.

"Houve muitas mudanças genéticas que ocorreram no processo de desenvolvimento dos humanos", disse Varki. "Este estudo sugere que as mudanças no cérebro foram um dos principais aspectos em que o homem evoluiu a partir do chimpanzé", acrescentou. "O cérebro humano é um órgão muito, muito complicado e este estudo valida isso", disse Muchmore, outra co-autora do estudo.

Os chimpanzés estão mais próximos dos humanos do que qualquer outro primata. Pensa-se que os dois deverão ter partilhado um parente ancestral há cerca de cinco a sete milhões de anos, apesar de não se saber muito bem qual deverá ter sido o aspecto desse antigo primata comum.

A partir daí, os dois evoluíram separadamente e os humanos desenvolveram um cérebro de dimensão duas vezes superior ao dos chimpanzés.

O estudo analisou igualmente a actividade genética no fígado, cérebro e sangue dos orangotangos, outro tipo de macaco semelhante ao chimpanzé, e dos macacos da família Rhesus.

Os investigadores descobriram que, apesar do tecido e do sangue dos chimpanzés ser semelhante ao dos humanos, a actividade dos genes no cérebro do animal é mais próxima da dos outros macacos. "Se olharmos para o sangue do chimpanzé e do humano, é muito difícil distinguir um do outro", disse Varki, especialista neste domínio.

"Os humanos expressam maiores diferenças genéticas ao nível do cérebro e isso é o que nos permite fazer aquilo que somos capazes de fazer", acrescentou.

O investigador explicou que a comparação genética entre chimpanzés e humanos pode conduzir a avanços no campo das terapias destinadas ao combate de doenças que afectam o homem.

"Compreendendo as diferenças entre o homem e o chimpanzé, podemos aprender mais sobre as doenças genéticas que afectam os humanos, mas não os chimpanzés", disse Varki. Como explicou, os chimpanzés podem ficar infectados com o vírus da sida, mas nunca adoecem. Também não sofrem quaisquer efeitos sintomáticos provenientes da infecção com o Plasmodium falciparum, a mais grave forma de malária, doença que mata milhares de pessoas todos os anos.

Segundo Varki, ao procurar uma explicação para estas diferentes respostas às doenças, os investigadores podem encontrar genes que protegem os chimpanzés, mas que não existem nos humanos. "Isto pode levar a novas terapias", disse.

No entanto, o investigador explicou que este trabalho não significa que os chimpanzés devam ser transformados em animais de laboratório, até porque estão tão próximos do homem que "a investigação com chimpanzés deve seguir os mesmos princípios que a investigação com pessoas", referiu. Mark D. Shriver, perito em história da origem do homem na Universidade da Pensilvânia, considera que o estudo encontrou "o padrão esperado", quando se compara chimpanzés com humanos. Mas disse que, para as descobertas serem definitivas, os investigadores precisam de estudar a actividade genética em mais tecidos e em todas as espécies.

Maynard Olson, um perito em genética da Universidade de Washington, em Seattle, disse que o estudo sobre humanos/chimpanzés "é um começo", mas que muito mais trabalho precisa de ser feito nesta área.

in Diário de Notícias, 12 de Abril de 2002

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