EVOLUCIONISMO

DARWIN PERMANECE POLÉMICO


Em criança coleccionava besouros ao ponto de ficar obcecado. O pai não lhe augurava grande futuro, temendo que não fosse capaz de fazer mais do que caçar ratos e besouros e desgraçasse o bom nome da família. Não reparou que o filho desenvolvia o hábito e o prazer de observar o comportamento dos animais, que no futuro o transformaria num dos poucos homens da história a influenciar os rumos do pensamento humano. A sua obsessão pelos besouros seria substituída por outra: o estudo da origem das espécies. Charles Darwin, nasceu a 12 de Fevereiro de 1809 e morreu a 19 de Abril de 1882, em Inglaterra, faz hoje 120 anos.

Começou por cursar medicina, seguindo a tradição familiar. Mas ao ser operado a um dente sem anestesia, percebeu que errara a vocação. Abandonou o curso. Embora os rendimentos familiares lhe dessem para viver o resto da vida sem trabalhar, o distinto Robert Darwin desesperou com as "fraquezas" do filho. Aconselhou-o a dedicar-se à Igreja Anglicana, sugestão aceite pelo jovem. Mas não gostou de ouvir dizer que a Terra foi criada às 9 horas do dia 23 de Outubro de 4004 a.C., que todas as espécies foram criadas ao longo de seis dias e que nunca sofreram mudanças.

Entre 1828 e 1831 frequentou Cambridge. Ali conheceu dois professores que ajudariam a moldar o seu futuro: Adam Sedwick e John Henslow. Este, atento à sua paixão pela natureza aconselhou-o a integrar a tripulação do Beagle, cujo capitão tinha a tarefa de mapear mares e costas. Foi incorporado como naturalista. Durante as paragens do navio, Charles recolheu, ao longo de cinco anos, tudo o que via: rochas, fósseis, aves, insectos e animais que empalhava. Ao mesmo tempo escreveu um diário de viagem.

Quando regressou em 1836, Darwin já sabia o que fazer do resto da vida. Apercebera-se na viagem de que as espécies animais sofrem mudanças. Queria saber porquê e como. Classificou o material recolhido e com Richard Owen publicou Zoologia da Viagem do Beagle.

Casou-se com Ema - com quem foi feliz e teve dez filhos - e retirou-se para uma casa de campo, onde se entregou ao estudo até à morte. Depois de se inspirar nas teorias de Malthus e Lamarck, publicou A Transmutação das Espécies, onde falava nas mudanças ocorridas nos seres vivos, mas não as explicava. É na sua obra Sobre a Origem das Espécies por meio da Selecção Natural que Darwin dá início a uma verdadeira revolução do pensamento. Só no primeiro dia de publicação, a 24 de Novembro de 1859, foram vendidos 1250 exemplares.

Apesar de propositadamente não utilizar o termo "evolução", nunca mais se livrou do conceito. Nesta obra anunciou a teoria da evolução dos seres vivos através de uma selecção natural que favorece nos indivíduos variações úteis na luta pela sobrevivência. Variações que se transmitem aos descendentes. No processo de selecção natural sobrevivem os indivíduos e as espécies melhor adaptados.

A este trabalho seguiu-se outro, A Origem do Homem, onde aprofunda a teoria sobre a descendência do homem e do macaco de um antepassado comum.

Os anos seguintes foram de debates intensos na comunidade científica e de combates ferozes com as correntes religiosas que vêem no homem a imagem de Deus. Curiosamente, Darwin participou pouco nestas contendas. Deixou aos seus simpatizantes o trabalho de o defenderem.

A controvérsia atravessou todo o século XX. Charles Darwin foi e continua a ser ponto de partida para novas ideias e teorias. E fonte ainda de muitos incómodos. Ao ponto de o Conselho Estadual de Educação do Kansas decidir, há pouco mais de dois anos, proibir o estudo da teoria da evolução nas escolas públicas do estado. Lobbies religiosos que continuam a não suportar outras visões sobre a criação do mundo e do homem.

Darwin morreu a 19 de Abril de 1882, deixando extensa obra. E apesar das campanhas da Igreja contra as suas ideias, foi sepultado em Westminster, ao lado de Isaac Newton. Um comentário do filho desafia-nos: "Consegue imaginar que conversas deliciosas o pai e Sir Isaac terão à noite, depois da abadia fechar e tudo ficar quieto?"

in Diário de Notícias, 19 de Abril de 2002

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