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EVOLUCIONISMO
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| A MORTE DE UM CIENTISTA HUMANISTA |
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Era paleontólogo, biólogo, historiador das ciências, professor na universidade americana de Harvard e um comunicador ímpar. Na esteira de Darwin e da sua teoria da evolução deu um passo na direcção do acaso e estipulou que, nas espécies, evolução não significa progresso. Ensaísta e escritor de best-sellers com títulos bem-humorados (O Polegar do Panda ou O Sorriso do Flamingo), fã do basebol e membro de um coro de música antiga, Stephen Jay Gould morreu na segunda-feira, vítima de cancro. Tinha 60 anos. "Era um escritor maravilhoso, com uma enorme envergadura intelectual e uma grande consciência social", disse Ellen Goldensohn, editora da revista Natural History, que publicou durante 25 anos as suas crónicas mensais. Stephen Jay Gould nasceu a 10 de Setembro de 1941, em Nova Iorque. O seu amor pela paleontologia despertou aos cinco anos durante uma visita ao Museu de História Natural da cidade, acompanhado pelo pai. Em 1963, o jovem Gould obtém um diploma em geologia, pelo Antioch College, quatro anos mais tarde faz um doutoramento em paleontologia na Universidade da Columbia e a partir daí aceita uma cadeira de Geologia e Zoologia em Harvard, Massachusetts, onde leccionou desde então. Os seus primeiros estudos, consagrados aos fósseis de invertebrados e aos caracóis que caçava nas Bermudas, levaram-no a questionar o gradualismo da teoria de Darwin e o seu conceito de evolução e de selecção natural das espécies, por via da adaptação lenta. A partir de 1972, encetou com o seu colega Niles Eldredge uma crítica radical ao adaptacionismo, apontando as contradições do darwinismo e as "falhas" das linhagens fósseis que as alterações lentas por acreção (um tipo de depósito) não conseguiam explicar. Segundo Gould, a evolução funciona por movimentos bruscos: episódios de crise, seguidos de especiações rápidas e por vezes violentas, em resposta, nomeadamente, a mudanças climáticas, a que se sucedem períodos relativamente estáveis. Este neo-darwinismo condu-lo a uma outra conclusão célebre: o homem é fruto do acaso. "Os seres humanos não são o resultado final de um progresso evolucionista previsível mas uma intenção cósmica fortuita de segundo plano, um minúsculo ramo no enorme bosque arborescente que é a vida", escreveu. Foi essa a mensagem que trouxe a Lisboa, em Novembro de 1995, quando proferiu uma conferência na Gulbenkian. Perante um auditório apinhado e maravilhado, Gould falou das três revoluções da humanidade. A primeira, quando Galileu devolveu a Terra ao cosmo, deslocando-a do centro do universo para o lugar de um, entre outros planetas no sistema solar. A segunda, da responsabilidade de Darwin, colocou a espécie humana ao lado dos outros animais, retirando-lhe a carga divina. A terceira foi desencadeada por Freud, que libertou a humanidade do racionalismo exacerbado "ao presenteá-la com o conceito de insconsciente", como disse em Lisboa. A esta sequência juntou, Gould, o acaso. Catedrátrico poderoso e combativo, escritor humanista e eloquente, foi autor de várias obras científicas e de outras de divulgação. Tinha acabado de publicar a sua maior obra, A Estrutura da Teoria de Evolução, 1464 páginas de balanço de 40 anos de trabalho. in Diário de Notícias, 22 de Maio de 2002 |
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