EVOLUCIONISMO
UM COICE DA NATUREZA


Ao todo, a História registou apenas umas dezenas de mulas férteis, no mundo inteiro. Os partos comprovados cientificamente não chegam à meia dúzia. Em Portugal, uma mula teve uma cria - fizeram-lhe análises citológicas, de ADN, testes de fertilidade e ganhou um lugar no pódio das raridades. Actualmente, vive em Vila Real, mas está de alforges aviados para Lisboa, onde os especialistas vão tentar que repita a façanha. Afinal, uma mula é um ponto final na biologia dos equídeos, um híbrido estéril que resulta do cruzamento entre duas espécies diferentes - os cavalos e os burros. Os romanos tinham mesmo um ditado a propósito de acontecimentos impossíveis: cum mula peperit, que é como quem diz, «quando a mula parir». Pois esta pariu e isso foi apenas o começo da história.

É bonita, alta e elegante, de pêlo negro lustroso e tudo começou quando partilhava com um burro o estábulo de uma propriedade agrícola, no Alentejo. A 28 de Abril de 1995, pasmou as gentes de Vale de Vargo, concelho de Serpa, com um parto observado pelo veterinário local. Segundo o Diário do Alentejo, «o espanto foi grande e, mesmo vendo, muita gente não acreditava».

Teresa Rangel, 43 anos, a investigadora da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) que tem tido a mula e a cria à sua guarda garante que se trata de caso verídico. «0 parto foi assistido por um veterinário, o que lhe confere ainda mais credibilidade - por vezes os relatos carecem de confirmação, porque não se observa o nascimento e os animais facilmente adoptam crias que não são suas.»

A mula e a sua cria, um animal do sexo masculino (o «mulo», como lhe chamam, nos estábulos da Universidade), tomaram-se, então, num material biológico de grande valor para os cientistas. O proprietário dos animais, Manuel Barradas, prontamente os emprestou para serem estudados. Recolheram-se também amostras de sangue dos pais possíveis (o burro companheiro de estábulo ou o cavalo de um vizinho) e, no laboratório, construiu-se o álbum de família.


Quem é o pai?

As primeiras análises, no departamento de Zoologia da UTAD, incidiram sobre os cromossomas dos animais. Um cavalo (Equus cabalius) tem 64 cromossomas, um burro (Equus asinus) 62 cromossomas e a mula, o híbrido, 63 cromossomas. Embora seja um animal saudável, «a mula não produz gâmetas (células reprodutoras) viáveis», explica Teresa Rangel. «Como os cromossomas não possuem homologia suficiente para emparelhar, no aparelho reprodutor da mula muitos óvulos abortam.»

Pensa-se hoje que a origem das mulas remonta há 3 500 ou 5 mil anos e que terão aparecido na região mediterrânica, fruto da vontade do homem em produzir um animal grande e forte como um cavalo e, ao mesmo tempo, resistente, trabalhador e dócil como um burro. A mula e o macho (híbrido masculino) podem resultar tanto de um cruzamento de um burro com uma égua como de um cavalo com uma burra, mas as crias das éguas são não só mais frequentes como também preferidas, pelo seu vigor.

Com estes testes, confirmou-se que a mula em questão é, de facto, um híbrido, enquanto o cariótipo (descrição gráfica dos cromossomas) da sua cria mostrava que o animal é um «mosaico» - as suas células contêm diferentes composições genéticas, ao contrário das células da generalidade dos seres vivos, que têm o mesmo ADN. «Este indivíduo sempre foi anormal, tendo mesmo algumas dificuldades de sobrevivência», lembra Teresa Rangel.

A cria também vive em Trás-os-Montes, na clínica veterinária da Universidade. Muito dada a infecções, já teve problemas de pêlo e parece sofrer de alguma desorientação. Tem ares de burro, mas foram os testes de paternidade, efectuados ao ADN dos animais envolvidos na história, que deram a resposta final.

Catarina Ginja, 27 anos, actualmente estudante de Mestrado na UTAD, fez as análises moleculares que permitiram confirmar a maternidade e definir a paternidade deste acidente da natureza. As amostras dos protagonistas foram avaliadas nos laboratórios do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial, em Lisboa. Embora não decisivos, os testes apontavam para um «culpado»: o burro.


Mula procura parceiro

Entretanto, Catarina Ginja foi para a Universidade da Califórnia, nos EUA, e levou consigo as amostras das personagens do caso português, «que muito interessou aos investigadores americanos». Nos EUA, a criação de mulas é um caso sério. Há concursos, uma rede de criadores e publicações específicas. Durante a Primeira Guerra Mundial, 300 mil animais norte-americanos foram enviados para a Europa, quando a sua presença nas hostes militares era decisiva.

Desde a vulgarização dos motores a diesel, nos anos 40 e 50, as mulas perderam terreno para os tractores, mas continuam a ser admiradas pela sua capacidade de trabalho e pé firme, seja nos socalcos de vinha do Douro seja no transporte de turistas, nos desfiladeiros do Grand Canyon.

No laboratório de Genética Veterinária, na Califórnia, Catarina teve acesso a um painel de marcadores moleculares muito completo, para os testes de paternidade. «São especialistas na análise de equinos e asininos, fazem-no por rotina», explica a investigadora. E pronto, excluiu-se o cavalo, o pai era o burro.

Desde logo os investigadores procuraram que a mula repetisse a façanha. Mas até hoje, nada. Na UTAD, a mula chegou a entrar em cio, ocasião logo aproveitada para a apresentar ao garanhão da casa, um cavalo Alter Real, com grande fama na região. Mas o romance não correu bem. 0 cavalo, esquisito, frequentador da Escola Portuguesa de Arte Equestre, rejeitou a mula. Talvez quando chegar a Lisboa lhe arranjem um burro.

A investigação vai continuar, com os animais à guarda de Antunes Correia, investigador na Faculdade de Medicina Veterinária. A fertilidade do mulo-filho também será testada, com análises morfológicas e avaliação do sémen, mas suspeita-se que seja estéril. Se uma mula fértil é caso raro (estimado em um por milhão), não há memória de alguma vez um híbrido masculino ter procriado. Nem cum mula peperit.

in Visão, 6 de Setembro de 2001

© CienTIC - José Salsa, 2003 - optimizado para 1024 x 768