CLASSIFICAÇÃO

EVOLUÇÃO E CLASSIFICAÇÃO

A sede de classificar os seres vivos é partilhada por cientistas e não cientistas. Toda a gente aceita, sem muita insistência, que, apesar das óbvias diferenças, águias, avestruzes e colibris são, todos eles, aves. No entanto, os principais grupos de seres vivos, determinados taxonomicamente, não são apenas uma maneira ordenada de organizar os milhões de espécies que existem no Mundo. As categorias da vida e as suas relações, numa hierarquia conjugada, podem ser interpretadas como um diagrama simplificado de próprio processo da evolução.

Os actuais taxonomistas estão constantemente em busca de uma melhor maneira de organizar um sistema classificativo que seja significativo e não arbitrário. O que é que torna, por exemplo, o filo Mollusca aparentemente mais «real» e menos arbitrário como grupo do que, digamos, todos os animais que têm corpo vermelho? Simplesmente porque caracóis, lesmas, chocos, bivalves e outros grupos dentro dos Mollusca, partilham uma história evolutiva comum.

Um sistema classificativo viável tem de compreender uma hierarquia em que grupos são totalmente integrados dentro de grupos compósitos mais amplos, sem que haja sobreposição. A espécie humana, por exemplo, é membro da ordem dos primatas, que está contida na classe dos mamíferos, etc.

Dois sistemas classificativos - o fenético e o filogenético - são viáveis. No primeiro, cada grupo na hierarquia é determinado inteiramente por similaridade de estrutura. No segundo, os agrupamentos baseiam-se no padrão da sua história evolutiva.

Os resultados de se classificarem diferentes trios de espécies de acordo com ambos os sistemas estão expressos nos diagramas juntos. No caso do trio leão, tigre e lobo, os resultados são os mesmos, mas já no outro, onde ocorreu uma evolução convergente, são diferentes.


CLASSIFICAÇÕES FENÉTICA E FILOGENÉTICA

Se um lobo, um leão e um tigre são classificados por sistemas, primeiro fenético e depois
filogenético revela-se o mesmo padrão. O leão e o tigre estão mais relacionados entre si


CLASSIFICAÇÃO FENÉTICA


CLASSIFICAÇÃO FILOGENÉTICA

Quando uma lapa, uma craca e um caranguejo são classificados nos sistemas fenético
e filogenético obtêm-se resultados diferentes. Em termos evolutivos, as cracas e os caranguejos
(ambos crustáceos) estão mais relacionados um com o outro do que qualquer deles com
a lapa, que é um molusco. Mas as lapas e as cracas desenvolveram conchas cónicas semelhantes
através de uma evolução convergente, o que as liga em termos fenéticos.

A convergência acontece quando membros de grupos filogeneticamente distantes assumem fenótipos semelhantes como resposta a semelhantes pressões selectivas. Um tubarão e um golfinho, por exemplo, desenvolveram ambos um corpo de forma afuselada, não obstante um ser peixe e o outro mamífero. Paralelamente, a convergência na forma do corpo entre a craca e a lapa esconde a distância filogenética que as separa.

Muitos defensores da abordagem fenética utilizam uma taxonomia numérica para organizar as suas hierarquias. Considerando um número suficiente de características, esperam chegar a um grau médio de semelhança ou de diferença entre espécies. Os agrupamentos de espécies «próximas» deveriam então surgir quase por si próprios. Infelizmente, não há uma maneira de encontrar médias de semelhanças que não sejam arbitrárias, de modo que, em última análise, esta técnica é, ela própria, arbitrária.

Os taxonomistas utilizam cada vez mais o sistema filogenético denominado «cladística» (do grego cládos, que significa «ramo novo»), delineado nos anos 50 pelo entomologista alemão Willi Hennig. A cladística define os grupos taxonómicos de acordo com os antepassados comuns recentes das espécies. Se uma espécie tem uma história fóssil pormenorizada, a sua história cladística - uma espécie de árvore genealógica - é estabelecida com precisão. Sem a vantagem dos fósseis, os taxonomistas têm de utilizar meios mais indirectos, como seja o conceito de características primitivas e derivadas. As características de uma espécie alteram-se ao longo do tempo através de uma sequência de mutações e da selecção. As características de uma fase anterior são chamadas «primitivas» e as de uma fase posterior «derivadas».

O princípio fulcral do sistema de Hennig é que características derivadas partilhadas indicam ancestralidade comum, ao passo que características primitivas partilhadas não o indicam. Não há nenhuma classificação que se baseie numa única característica derivada partilhada. Na prática, obtêm-se classificações fiáveis quando toda uma série de comparações, como seja a comparação «fora de grupo», aponta para a mesma conclusão.

A grande maioria dos taxonomistas utiliza uma forma de sistema filogenético que se liga estreitamente ao princípio da mudança evolutiva. Na realidade, o sistema pressupõe a evolução como o padrão máximo de aferição da sua «naturalidade». Uma vez que se conheça o padrão real de ancestralidade de um grupo de espécies, o grupo é classificado em absoluto. Longe de constituir um conjunto poeirento de rótulos para a organização de espécimes de museu, este sistema classificativo reflecte o passado evolutivo dos grupos de criaturas que tenta descrever.

in Whitefield, F. 1993. História Natural da Evolução. Verbo. Lisboa

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